Konsalik

CONSPIRAO AMOROSA


Traduo de
LUIZ DA SILVA

Crculo de Leitores



1

- Carmencita, cada dia que passa ficas mais bela.
Como consegues tal coisa?


Eberhardt von Bercken, sorrindo, encostou-se + 
parede da box~.
A gua de plo escuro baixou a cabea. Estendeu a 
mo para ela, o homem acariciou-lhe meigamente a 
crina. O animal pediu mais, encostando-se-lhe  mo, e 
o dono fez-lhe uma festa no focinho com um dedo.
Ouviam-se soprar os cavalos agitados. Uma 
sensao de bem-estar invadiu Eberhardt, como 
acontecia sempre que se encontrava na cavalaria, junto 
dos animais.
Ali, podia descontrair-se e esquecer a sua 
insegurana. Com os cavalos no corria riscos de ser 
atraioado. Eram animais sensveis e fiis.
Quando Fritz Meerkamp entrou no estbulo,
Eberhardt ergueu o queixo e disse, cheio de
energia:
- Vamos, minha linda,  preciso trabalhar,
para no ficares muito pesada. Meerkamp, comeamos amanh - 
dirigia-se ao feitor. - Ela
vai competir pela primeira vez daqui a trs meses, temos de 
trein-la.
- Amanh, senhor Von Bercken. Sim, temos que p-la a 
trabalhar. Deixe-me tratar disso.
- Est a querer dizer que eu faria melhor se
me encarregasse dos problemas administrativos,
no ?
- Nada disso. Se h quem perceba de cavalos,  o senhor 
- afirmou Fritz Meerkamp.
Ele sabia bem o que dizia. J trabalhava na
herdade e na coudelaria no tempo do pai de
Eberhardt von Bercken, e no s como feitor,
naquela poca, mas tambm como trabalhador
da quinta e treinador de cavalos. O velho Bercken, a brincar, 
chamava-lhe, por vezes, 1/2Meerkamp para todo o servio . 
Depois da morte do patro, ajudava o filho mais novo, 
Eberhardt, na
medida em que a idade ainda lho permitisse.
O filho mais velho, Dietmar, tinha estudado
Medicina e instalara-se como cirurgio em Hamburgo, depois de 
ter recusado a herana paterna.

Em cada Natal mandavam-lhe apenas um presunto, o que era 
praticamente o nico contacto
que os dois irmos ainda mantinham. Eram muito diferentes e 
Dietmar fora sempre o preferido da me, embora Eberhardt tivesse 
feito esforos para atrair as atenSes dela, sem grande 
sucesso...
Quando o velho Bercken morreu, Eberhardt
abandonou os estudos de Economia, alis sem
relutncia, e assumiu a sucesso. A me instalara-se em Hamburgo, 
perto do filho predilecto.
Eberhardt casou-se. Meerkamp tinha assistido  chegada da 
jovem esposa  propriedade.
Havia grinaldas de pinheiro a ornamentarem a
entrada e flores por toda a parte. Eberhardt, respeitando o 
costume, pegara-lhe ao colo para
transporem o limiar da porta. A jovem parecia-se incrivelmente 
com a me de Eberhardt: cabeleira escura, um porte algo distante 
e arrogante.
Os olhos do jovem cintilavam e, naquela poca,
ainda lmpidos, sem aquela nvoa de tristeza que
veio depois... Erguera o copo em sua honra:
- Aqui temos a nova senhora da herdade de
Bercken. Que sejas bem-vinda, Gabrielle! Desejamos que sejas 
feliz entre ns!
Todos tinham brindado:
- Viva Gabrielle!
Ela agradecera, com uma amabilidade um
pouco distante.
Na realidade, a gente da herdade nunca a
amara. No entanto, quando se soube que ela esperava um filho, o 
marido parecia to feliz que
todos se regozijaram com ele. Alis, fora a nica vez.
- Bom! ao trabalho! - disse Eberhardt.
- s suas ordens, patro! - respondeu
Meerkamp.
Eberhardt saiu para o ptio. A brisa da manhA,
perfumada pelos cravos e pinheiros fustigou-lhe o rosto. A 
herdade de Bercken situava-se num pequeno parque plantado de 
pinheiros, btulas e faias. Em frente da casa e a todo o seu 
comprimento corria um canteiro de flores. Os prados e
pastagens, no horizonte, desembocavam numa
floresta que tambm fazia parte da propriedade.
Quando Eberhardt tomou conta da herdade,
enfrentou graves dificuldades. As mudanas que
se operavam na agricultura impunham a especializao num 
determinado tipo de cultura e Eberhardt investira toda a sua 
energia e saber naquela tarefa. Tinha feito uma escolha que s 
raramente lamentava e quando se sentia mais desanimado,
embora tivesse abandonado os estudos para se dedicar  
propriedade.

Os resultados tinham sido encorajadores.
Amava a herdade e sentia-se feliz ali, o que nunca acontecera com 
Gabrielle. O marido pensava,
ento, que a sua perptua insatisfao terminaria
quando nascesse a criana. Embora no viesse de
um ambiente abastado, nada estava bem para Gabrielle e dizia mal 
de tudo e de todos. E, para
cmulo, aborrecia-se no campo.
Chegou entretanto o dia fatal: pouco tempo
antes do nascimento do beb Bercken, fosse rapaz ou rapariga, 
pouco importava. Naquele dia,
Gabrielle anunciou ao marido que o filho no era
dele, mas do antigo namorado, com o qual se
encontrara uma vez...
- Eu no estava a tomar a plula. Aconteceu
quando foste ao congresso dos agricultores,
Eberhardt. Lembra-te de que ambos atravessvamos uma fase 
difcil.
Ela sentara-se no carro e partira em seguida.
Eberhardt no pusera obstculos quando a mulher pedira o 
divrcio. Agora estava casada com
o outro e a criana era um rapaz.
Desde essa poca, as mulheres tinham deixado de existir para 
Eberhardt.
- Sou um original, um solteiro resmungo,
tm de me aceitar assim. Gosto do cheiro dos cavalos e do couro, 
mas no aprecio os perfumes
que as mulheres espalham  sua volta.
Gracejando, confiava-se a Michel Kringel,
seu amigo de sempre. 1/2Mike  Kringel, veterinrio em Engenstedt, 
uma povoao vizinha, era
amigo de Eberhardt desde a infncia, ainda que a
sua amizade tivesse sofrido algumas interrupSes
no passado. Tinham estudado em cidades diferentes e Kringel 
aderira nessa altura a um grupo
de estudantes adeptos da esgrima, o que lhe valera duas 
impressionantes cicatrizes na testa.
- Faz parte do meu visual de pirata!-dizia ele.
Tinham-se perdido de vista outra vez quando
Mike Kringel vivera durante dois meses com
uma rapariga, meio prostituta, meio danarina
de strip-tease, em quem apreciara um certo encanto e belas 
mos...
Enquanto Gabrielle vivera na herdade de
Bercken, Mike Kringel nunca por l aparecera.
Irritavam-no os modos condescendentes da mulher de Eberhardt, e a 
este a ausncia do amigo
at agradava, pois conhecia o seu poder de seduo. Mike Kringel 
era um verdadeiro Casanova.
Eberhardt, decepcionado pela me e pela mulher,
estava farto do belo sexo e vivia sozinho, enquanto Mike Kringel 
gostava tanto de mulheres
que preferia permanecer livre para cada uma delas. A sua divisa 
era: por causa de uma s, porqu ter que perder todas as outras?
- Sempre que encontro uma mulher bonita,
respiro fundo e o meu corao pSe-se a bater
com mais fora, meu caro. Ora, este  o mais

elementar dos instintos para o caador: caar {
depois saborear a presa. Todos os homens o trazem no sangue. No 
venhas dizer-me, Eberhardt, que no sabes como .
- Pois ento desejo-te boas caadas; eu c
prefiro continuar solitrio.
- Antigamente dizia-se solteiro.
- Mas tu tambm vives sozinho. A situao
at  a mesma, no?
- Se tencionas fundar o partido dos solteirSes, Ebi, eu 
quero ser o tesoureiro.
- Ah, no! Peo-te que no me chames Ebi,
est bem?
E assim acabavam todas as tentativas que cada um deles fazia 
para trazer o outro ao 1/2bom
caminho .
Mike no era de natureza melanclica. Ganhava bem a vida. 
Habitava uma vivenda que lhe
agradava, com um jardim de Inverno, um pomar, um relvado, semeado 
de dentes-de-leo, margaridas-Mike no gostava de tratar da 
relva-e macios de arbustos. A casa era confortvel, 
suficientemente espaosa para poder receber
amigos.
Avistou a irm que descia do carro de desporto e h muito no 
vinha visit-lo. Como era
bonita!
- Laura!
- Mike!
Beijaram-se e olharam-se, sorridentes.
- Ests muito elegante!-cumprimentou ele.
- E tu nada tens a invejar-me.
- Entra. H quanto tempo c no vinhas?
- E tu? H-de haver uns trs anos que no
apareces em Berlim, no?
- Mais ou menos. Mas ento, eis-te de volta, depois de seis 
anos de ausncia... Emagreceste. Tens algum aborrecimento?
Laura sentara-se numa das poltronas de couro
branco. Tinha os cabelos to louros como em
criana, luminosos como a folhagem banhada
pelo sol, a tez delicada, cor de ch. Era encantadora, com o 
nariz pequeno, a boca bem desenhada e os olhos amendoados, da cor 
do cu. Vestia calas de couro e um camiseiro de seda vermelha, 
que lhe davam a aparncia de um manequim
de revista de modas.
"No", pensou Mike, "ela  bem melhor,
mais sensvel".
O olhar de Laura ensombrou-se.
- Deixei o Frank-explicou.-Apesar de
vivermos e trabalharmos juntos h quatro anos.
Mas aquilo j no podia durar mais. No conheo ningum to 
desptico como ele. Explorou-me. Para ser franca, Mike, no foi 
apenas a ternura fraterna que me trouxe at aqui. J falmos 
disso ao telefone. Deixei o Frank e no posso continuar a 
trabalhar com ele no nosso gabinete de consultadoria fiscal. Ele 
que se arranje sozinho ou com outra pessoa qualquer. Preciso que 
tu me digas se um conselheiro 
fiscal tem hipteses de arranjar clientela aqui, em 
Engenstedt.

Mike sorriu.
- Com certeza. Por c cometem-se tantas fraudes 
como em toda a parte!
- Por favor, Mike, estou a falar a srio!
- No te preocupes, ser fcil estabeleceres-te 
aqui. A cidade bem precisa de um perito capaz e 
discreto.
Laura no conseguiu resistir a perguntar:
- Que  feito do teu amigo Eberhardt?
- Laura, olha para mim!
Mike fitou-a com ar desconfiado e ela corou. aos 
doze anos estivera apaixonada por Eberhardt. Ele, 
obviamente, s se interessava pelas raparigas mais 
velhas. Um dia, na floresta, tinha-a ajudado a fazer subir 
um pequeno tren para cima de um talude e, por um 
instante, pousara o brao no ombro de Laura. A 
recordao daquele momento permanecera na jovem 
durante dias inteiros. Depois, Eberhardt partira para 
estudar e Laura fora trabalhar em Berlim. No entanto, 
guardara na memria a lembrana dele e, quando o 
recordava, sentia-se perturbada como uma adolescente, 
sonhando com um homem forte e protector...
Sorriu, pouco  vontade, e recomps-se. Era 
adulta, mas queria preservar as emoSes da infncia.
- Bebo  tua sorte, Laura! E aos nossos amores!
Ela bebeu um bom gole de vinho.
- Agradeo-te, Mike. Ainda no perdi as 
esperanas.  tua sade.
- E os nossos pais, como esto? Parece que no 
podem ser contactados facilmente, neste momento.
- Bem sabes, Mike, que quando no esto na casa 
de Maiorca fazem mil e uma coisas. O pap est a 
escrever um novo romance. A mamA frequenta um curso 
de aerbica, joga brdege e ocupa-se das suas obras de 
caridade, organizando quermesses e bailes de toda a 
espcie. Isso vai chegando para os entreter.
- Suponho que gostarias de viver uma felicidade 
conjugal semelhante? S te falta encontrares o parceiro 
ideal!
Ela desatou a rir.
- J entendeste tudo, Mike.
Ele fitou-a.
- Se vocs querem mesmo que o Eberhardt v  
festa, faam com que seja a senhora Von Pluttkorten a 
mandar os convites e no falem em festa-surpresa, 
chamem-lhe "sero". O Eberhardt  pavorosamente 
antiquado.
Laura levantou-se para depositar um beijo no nariz 
do irmo.
- Como s simptico... Isso quer dizer que ests 
disposto a ajudar-me? Sabes, talvez ele j nem sequer 
me agrade...
- um rabugento, mas um rabugento simptico! 
Laura entrou em contacto com a sua amiga
Renate, em Munique, que, por sua vez, contactou a av, a senhora 
Von Pluttkorten. No dia seguinte, Eberhardt recebeu um convite:
"Caro senhor Von Bercken,  lamentvel,

no lhe parece?, que, sendo vizinhos, nos vejamos to raramente. 
Terei muito prazer na sua
presena num pequeno sero que estamos a organizar em nossa casa. 
Venha na tera-feira, s
dezanove horas. Traje de cerimnia... ou informal. O meu marido e 
eu ficaremos encantados por v-lo. Cordiais cumprimentos, Amlia 
von Pluttkorten. "
Eberhardt sentou-se numa poltrona e suspirou.
"Deus do cu, como conseguirei safar-me
deste vespeiro? Sabe-se l quem mais  que eles
tero convidado!"
Receava sempre estas armadilhas, que consistiam em 
fazerem-no conhecer todas as jovens
disponveis da vizinhana. Eberhardt j sabia,
por experincia prpria, que as damas de idade,
do gnero da senhora Von Pluttkorten, tinham
uma perigosa predileco por este tipo de encontros.
Telefonou a Mike Kringel para discutir o assunto com ele.
- Est l?
Era uma voz feminina. Quer dizer que Mike
tinha novamente companhia... Eberhardt no
conseguia entender os motivos de tanto sucesso.
- Gostaria de falar com o senhor Kringel.
Fala Eberhardt Bercken.
Ouviu respirar do outro lado do fio e a mesma voz agradvel 
respondeu:
- Ele est neste momento a operar um co
bastante agressivo, s com anestesia local. Vou
tentar passar-lhe a chamada. Daqui fala a Laura. Laura Kringel.
- Hum... -Eberhardt tossicou. - Laura! Ento est por c?
No achou que estas palavras fossem muito felizes. Recordava 
Laura como uma linda rapariga, demasiado jovem para o seu gosto, 
e lembrava-se de ter andado com ela de tren. Naquele dia, ela 
tinha as faces coradas, um olhar luminoso. Ficara com uma 
agradvel recordao do epiSdiO.
- Hum... eu... quer dizer... Como tem passado?
Aquela conversa com o grande amor de outrora no comeava de 
modo muito brilhante, na opinio de Laura.
- No tenho de que me queixar, e voc?-
continuou Eberhardt. -Est aqui em frias?
- Sim, mais ou menos.
- Bom, eu volto a falar mais tarde.
- Quer que eu lhe d algum recado, no caso
de o co no ter devorado ainda o meu irmo?
Eberhardt hesitou por momentos.
-Queria perguntar-lhe se ele tambm recebeu um convite dos 
Pluttkorten. Convidaram-no
muitas vezes, creio eu. Talvez eu lhe deva a honra deste convite! 
Voc tambm vai, Laura?
- Hum... Sim... De facto... Provavelmente... Realmente, sim, 
vou.
- Muito bem. Era isso que eu queria saber. D saudades 
minhas ao nosso veterinrio. Em breve teremos ocasio de nos 
vermos. At depois, Laura.
- At breve, Eberhardt.

Desligaram e as coisas ficaram por ali. A conversa fora 
decepcionante e os comeos pouco animadores. Laura ficou furiosa. 
Aquele Eberhardt era um parvo e um pretensioso. Afinal, no era o 
nico homem do mundo! H homens
por todo o lado. Em Itlia, montes de italianos;
em Espanha, montes de espanhis, e em Engenstedt, montes de 
homens tambm! Realmente! De qualquer maneira, arranjar-se-ia o 
melhor possvel para aquela festa. Pelo menos, ele veria o que 
estava a perder!
No dia seguinte, a senhora Von Pluttkorten
telefonou-lhe:
- O Bercken no vem  festa, tem de ir ao
Salo de Agricultura, em Hanver. A Renate
chega ao meio-dia. O meu marido e eu esperamos que venha c ainda 
hoje, com o seu irmo.
Teremos tempo para pensar neste problema.
A senhora Von Pluttkorten estava muito elegante, com uma 
saia plissada preta e uma camisola verde-plida, de lA escocesa. 
O penteado artstico realava-lhe os belos cabelos brancos, de 
reflexos azulados. Como jias, usava apenas um
colar de prolas e um anel com uma prola. Apesar de contar mais 
de setenta anos, a pele fresca
no deixava adivinhar a sua idade, embora ela no
procurasse parecer mais nova. Parecia uma actriz
jovem a interpretar o papel de uma senhora idosa.
O senhor Pluttkorten era um homem alto e
entroncado, um gigante. Usava um bigodinho que
lhe dava o aspecto de um mosqueteiro de olhos
cinzentos e brilhantes. Tinha um porte de cavaleiro, de tronco 
muito direito e boa postura de costas. aos olhos da neta, Renate, 
que perdera os pais muito cedo, ele fora sempre um maravilhoso 
Pai Natal.
Renate recebeu os irmos Kringel de p, ao
lado dos avs. Tinha a graciosidade da av, mas
parecia mais forte do que esta, com rosto de diabrete, emoldurado 
por caracis castanhos. Os cabelos de Renate eram naturalmente 
frisados, o que, na infncia, provocara gracejos dos seus 
companheiros de escola; segundo eles, os cabelos
frisados eram indcio de esprito tortuoso-e ela
era forada a admitir que no deixavam de ter
razo.
Mike Kringel beijou a mo da senhora Von
Pluttkorten, Laura e Renate beijaram-se.
- Laura, ests um espanto!
- Tu tambm, Renate. Que bom estares por c novamente!
O senhor Von Pluttkorten abraou Laura,
pois gostava sempre de abraar as jovens, especialmente se fossem 
assim bonitas... Mike apertou a mo de Renate. A garota de 
cabelos desgrenhados que mais parecia um rapazito, a
adolescente que pisava os ps dos seus pares
quando danava, tinha-se transformado numa jovem deliciosa.
Mike conservava a mo da rapariga na sua e fitava-a. Depois, 
lentamente, muito lentamente, soltou-a, e esta leve carcia 
perturbou-o. Achou Renate to sedutora que resolveu deixar para 
depois o encontro que marcara com Monika uma empregada da Caixa 
Econmica. Queria dedicar-se a esta encantadora borboleta que mal 
sara do casulo.
- H dez anos que no nos vamos-disse ele.
- O que no o impede de continuar interessante...
Deixaram o vestbulo mobilado com peas

antigas e imponentes e dirigiram-se para a sala
decorada no estilo Lus Filipe, onde at o tapete
era dessa poca.
A chamin estava acesa e na sala espalhava-se
o cheiro agradvel da lenha a arder. Uma jovem,
vestida de negro, com avental e touca brancos,
trouxe uma garrafa de xerez e clices de cristal.
Laura tinha a sensao de ter voltado atrs no
tempo. Aquele lugar era, de certo modo, mgico, como se o idoso 
casal tivesse conseguido preservar o seu pequeno universo, 
defendendo-o das agressSes exteriores.
Saborearam o licor agridoce, mordiscando
biscoitos. O senhor Von Pluttkorten ps mais
uma acha na chamin e pegou no fole. A esposa
tomou a palavra:
- Estamos aqui reunidos para ajudar Eberhardt von Bercken a 
sair da sua toca. Laura, no
devemos faz-lo sofrer. Ainda est ferido por tudo o que lhe 
aconteceu e no aguentaria mais uma decepo. Eu era muito amiga 
do pai dele O Wilhelm e eu estimamo-lo. Conheo o Eberhardt desde 
pequeno, embora no sejamos ntimos, e desgostou-me o mau 
procedimento da mulher. O meu marido e eu 
reflectimos sobre este assunto e achmos que usar de 
uma pequena artimanh seria o melhor meio de ter xito. 
Falta uma semana para a festa.  evidente que a viagem 
a Hanver no passa de um pretexto, certamente pouco 
importante. Ele no quer ver ningum. Para ele, sair de 
casa lembra-lhe logo uma agncia de casamentos, 
agncia essa cuja finalidade  apenas apresent-lo a 
legiSes de mulheres disponveis.
- O Eberhardt no vai cair na armadilha minha  querida 
senhora - asseverou Mike. - Os homens, nesse  captulo, possuem 
um instinto que lhes faz farejar o  perigo. Justamente porque no 
me parece que o  Eberhardt esteja em perigo  que participo na 
vossa  combinao. Mas ser necessrio agir com subtileza.
A senhora Von Pluttkorten olhou para o ma rido.
- Concordas, Wilhelm? Posso contar a his tria?
Wilhelm von Pluttkorten concordava.
- Claro que sim, Amlia. Afinal, at de sempenhei  um papel 
importante nessa aventura, no foi?
Ela estendeu-lhe a mo e ele levou-a aos lbios.
- E por onde achas que eu comece?
- A Ifgnia estava com dificuldades em parir, e Waak, o meu 
feitor, mais uma vez, fazia-se
desentendido. Era muito competente, mas s ouvia o que lhe 
apetecia.
- E tu, sempre impaciente, deitaste as culpas para cima da 
Ifgna e do Waak. O meu Wilhelm no tinha um feitio muito fcil, 
naquele tempo...
Acreditem-me, era um solteiro empedernido!
Naquele tempo, s estava construda a ala esquerda da nossa casa, 
mas Wilhelm, depois que a
herdara, tinha transformado esta pequena propriedade numa herdade 
magnfica. O seu melhor
amigo, que se chamava Hermann Ritter, era meu
irmo, e morreu na guerra. A nossa herdade foi
vendida e dividida, no resta nada dela. Naquela

poca, cerca dos anos vinte, o Wilhelm e o Hermann eram 
inseparveis, bebiam juntos e bebiam
bem... Tinham estudado juntos e jurado um ao
outro que nenhuma mulher viria perturbar as
suas vidas.
"Eu acabara de sair do colgio onde estivera
interna e parecia-me que s por milagre os encantos de uma mulher 
poderiam arrancar aqueles
dias ao celibato.
"Em Pluttkorten viviam a Hermine, a mulher
do Waak, e a criada Stine. Alm delas, s havia
homens. Esta vida de casema tinha uma vantagem:
a equipa de futebol, constituda pelos empregados
da quinta e treinada pelo Wilhelm, acumulava vitrias sobre 
vitrias e podia aspirar a ganhar um
dia o campeonato regional. Na vila, as pessoas
tinham-se habituado  presena do Wilhelm e este era apreciado 
por ser dono de uma herdade e no desdenhar fazer as coisas, em 
vez de as mandar fazer. Se fosse preciso, subia para a ceifeira, 
atava os fardos e ajudava na colheita das beterrabas. Era grande 
e atltico, de rosto tisnado pelo
sol, em suma, era um homem que cheirava a terra e a tabaco e cuja 
voz forte parecia destinada a
comandar. Mas os seus olhos conservavam algo
de ingnuo. Eu apreciava aquele carcter impetuoso e 
adivinhava-lhe o corao sensvel. Wilhelm, conta tu o resto.
Wilhelm von Pluttkorten sorriu.
- Ora bem, tentava eu fazer entender ao
Waak, sem mais aquelas, que era melhor chamarmos o veterinrio, 
mas ele no queria nem
ouvir falar disso: um veterinrio, s porque uma
porca no queria parir, nunca se tinha visto tal
coisa! Ele resolveria o parto da Ifgnia e fazia
disso uma questo de amor-prprio... Naquele
momento, chegou o meu amigo Hermann, no
seu alazo. "Ol, grande traste", disse-lhe eu,
"apareces como uma ave de mau agoiro, espero
que no o sejas!" "Isso depende", respondeu ele.
Um empregado encarregou-se do cavalo do Hermann e o Waak voltou 
para junto da porca. Entrmos em casa e o Hermann explicou: 
"Estamos convidados para Mollendorf, aqui est o convite. Os 
Mollendorf so para ns uma espcie de tios
e a tia Alwine pensa que a Amlia devia sair de
casa.  certo que a nossa velha criada Wendevogel cuida dela 
muito bem, mas no pode substituir uma me e no  pessoa que v 
a festas." Olhei para o convite, dirigido a mim, perguntando, com 
desconfiana: "E como diabo  que o meu 
convite foi parar  tua mo?" Hermann era um farsante 
cheio de manhas: "Foi o carteiro que mo entregou. No 
vais ao ponto de exigir que o pobre Schmidt faa uma 
caminhada s para te trazer isto! "No sbado, s vinte 
horas, de smoking, - "Ora esta! E tu, tambm 
vais?" O Hermann fez um ar trocista. "Tenho mesmo 
que ir, quanto mais no seja por causa da Amlia, que 
est muito interessada na festa."-"E s capaz de me 
explicar o que  que eu vou fazer nessa reunio? Estou 
mesmo a ver o que vai acontecer... Fricass de aves, 
vinho doce, xerez... E nem uma gota de schnapsl. 

C por mim, prefiro uma boa fatia de presunto com po 
caseiro... E nem se pode fumar, e so capazes de 
organizar um concurso de jogo do eixo, de smokings 
vestidos! J nem me lembro quando  que usei tal coisa 
pela ltima vez."-"Foi quando foste expulso da 
Universidade de Friburgo, por embriaguez na via 
pblica!" - "Vai l tu com a tua irm, Hermann, e 
deixa-me em paz, longe de tais parvoces, est bem?" O 
Hermann levantou-se e ps-se a brincar com o pingalim. 
"Como quiseres. Se queres meter-te a ridculo aos olhos 
de toda a gente, isso  contigo. Vou dizer que o meu 
amigo Pluttkorten tem medo das mulheres... " Fez zunir 
o pingalim no ar e deu meia volta. Fui atrs dele, dizendo 
que ele fazia chantagem comigo. Sentei-me na minha 
poltrona preferida, que o meu pai dizia ter sido presente
do sulto de Madagscar, e olhei para a parede,
coberta de trofus de caa, todos de veados de
dez e doze galhos. Ainda l esto, e tambm
conservo a poltrona do sulto. OJupp entrou,
um belo rapaz, nascido no vale do Reno, que me
anunciou, sorridente, a boa novidade: "A Ifgnia
acaba de parir sete belssimos bcoros. "Tudo
voltara ao normal e eu acabara de tomar uma deciso.
Amlia von Pluttkorten prosseguiu a narrao:
- Eu tinha pedido insistentemente  tia A1wine que mandasse 
o convite.  certo que tnhamos sido educados com severidade, mas 
isso no fizera de ns tolos, e aquele Wilhelm agradava-me tanto! 
Quanto a ele, nem dava por mim, como se
eu nem sequer existisse. Cumprimentava-me de longe e quase nem 
olhava para mim quando vinha visitar o Hermann. Na realidade, 
importava-se menos comigo do que com o nosso doberman,
o Frido...         "Fiquei decepcionada quando o Hermann me
disse que o Wilhelm tinha resolvido arranjar uma
desculpa para no comparecer na reunio do tal
sbado. Eu no passava de uma garota e tinha
que me contentar com as escalas tocadas no piano, com os bordados 
e com a conversao em
francs com a senhora Wendevogel. Mas o Wilhelm ia ver do que eu 
era capaz! Arquitectei um
plano de batalha audacioso.
Laura, Renate e Mike Kringel estavam presos
 curiosa histria e era como se vissem chegar  entrada de 
Pluttkorten a carruagem de Hermann e de sua irm Amlia. Esta 
usava um vestido cor-de-rosa mais comprido atrs, como era moda 
ento. A modista inspirara-se num modelo da
revista O Espelho de Prata.
Franz, o mordomo, aparecou ao cimo da escadaria e desceu, 
com ar grave, dirigindo-se ao
patro e entregando-lhe um bilhete. Wilhelm escrevera:
"Caro Hermann, deixo-te partir sem mim
para essa encantadora reunio. Vou para o pavilho de caa. Vem 
ter comigo, se tiveres coragem. Seno, desejo-te felicidades e, 
sobretudo, s amvel com as damas.>)
Hermann abanou a cabea e estendeu o bilhete a Amlia.
- L-disse ele.-O Wilhelm ps-se em
fuga; no h nada a fazer. Nem um batalho inteiro de lindas 
raparigas conseguiria faz-lo mudar de ideias.
Deu um estalo com a lngua, para incitar o

cavalo. A carruagem arrancou e descou pelo caminho de saibro que 
levava  vila. Quando chegaram  orla da floresta, Amlia 
pediu-lhe que parasse. Hermann voltou-se para ela e fitou-a,
com surpresa.
- Amlia, o que  que isto quer dizer?
- Vou descer aqui.
- Em plena floresta?
- Com certeza que as lebres no vo devorar-me!
- Vais apanhar frio.
- O tempo est bom e, de qualquer modo,
trouxe a minha capa.
- E se te perdes?
- No sejas tolo, Hermann. Conheo o bosque como as palmas 
das minhas mos, ests farto de saber.
- Mas podes ter maus encontros...
- Pois , posso encontrar o bandido do Wilhelm!
- Ai, ai... Bem, nesse caso, boa sorte!
O mais que posso fazer  prevenir-te. Conheo o
bicho...
E partiu. Amlia achou-se sozinha na floresta. Tremia, no 
de frio, mas de excitao. Wilhelm! Um homem que s por ver uma 
mulher se punha a fugir. Seria possvel? Quem sabe se
no fugia de si prprio, por saber, l bem no
fundo, que uma mulher poderia destruir as suas
defesas. Wilhelm devia ser uma pessoa terna e,
com certeza, imaginava que essa ternura no correspondia ao ideal 
de homem viril que ele se esforava por imitar, ideal que lhe 
fora imposto desde a mais tenra infncia...
A noite caa e o frio era cada vez mais intenso. Os corvos, 
que durante o dia tinham volteado sobre os campos, j estavam 
recolhidos nos ninhos. A floresta era lentamente invadida por uma 
penumbra azulada. Amlia, sem fazer rudo, esgueirou-se na 
direco do pavilho de caa.
Distinguiu um vulto de alta estatura que ia e
vinha do outro lado da janela iluminada e escondeu-se debaixo de 
uma nogueira, sentindo-se muito 
enervada.
Para ganhar coragem, pensou nas outras mulheres 
da sua famlia, que desfaleciam quando ouviam um 
palavro, mas eram capazes de permanecer sobre a sela 
de um cavalo durante horas. Desempenhavam as tarefas 
domsticas, davam  luz muitas crianas, mas jamais se 
esqueciam de se manter fiis  imagem convencional da 
mulher frgil e graciosa.
De sbito, a porta do pavilho abriu-se e Wilhelm 
von Pluttkorten saiu. Envergava um casaco de lodenl e 
calas e botas de montar, levava uma espingarda ao 
ombro e um banco de abrir debaixo do brao. Assim 
equipado, passou perto da nogueira e desapareceu no 
bosque.
Amlia seguiu-o, procurando fazer o menos barulho 
possvel. Ia-se escondendo de rvore em rvore e 
baixava-se sempre que ele se voltava para trs. Cada 
vez lhe era mais difcil no o perder de vista na 
obscuridade, que se adensava. De repente, descobriu 
para onde ele se dirigia. Perto de um campo de trevo, 
Wilhelm subiu para um ponto de mira de caa. Ela fez 
um desvio, abriu caminho atravs dos arbustos diante do 

ponto de mira e instalou-se, ocultando-se no arvoredo.
Permaneceu ali durante algum tempo. Tudo 
estava calmo. Sentiu uma ave levantar voo ali perto. 
Uma coruja atirou o seu grito lgubre para a noite. 
Ouviam-se estalar as folhas secas.
O silncio era enganador; a noite tinha milhares
de olhos e era povoada por uma infinidade de
rudos. Amlia tinha medo. O que fazia ela ali?
Fosse qual fosse o desfecho da aventura, s serviria para a meter 
a ridculo. O que podia fazer?
Continuar a esconder-se e ficar sozinha quando o
caador partisse, ou mostrar-se e enfrentar Wilhelm? Agira 
irreflectidamente.
Sentia-se desorientada, prestes a precipitar-se para fora do 
esconderijo e a correr ao encontro de Wilhelm, atravs do prado, 
quando, de repente...
Wilhelm von Pluttkorten estava contrariado,
l no cimo do talude. Contemplava o prado que
se estendia a seus ps e a floresta silenciosa.
Aquela histria do convite no lhe saa da cabea
e pensava nos comentrios que no deixariam de
fazer acerca da sua ausncia. Tinha calor e no se
sentia bem. Lembrou-se de que nem sequer Hermann o pouparia, no 
falando j daquela mida,
Amlia, que havia uns tempos o fitava de um
modo to estranho que o deixava sempre pouco
 vontade. Por isso, preferia nem sequer olhar
para ela, para no se comprometer. Ainda um
dia encontraria um bom partido, no tinha pressa... O que at ali 
conhecera do amor tinha sido
srdido... pois recusava-se a fazer a corte a uma
mulher decente se no tivesse intenSes de casar
com ela.
Reteve a respirao. Acabava de ver uma
sombra que sara do bosque e atravessava o prado. Wilhelm 
levantou o binculo e sorriu. Era o "seu" veado, um belo animal 
cujas hastes em mau estado permitiam que fosse abatido, porque um 
verdadeiro caador protege a caa, no mata
 toa.
Wilhelm ergueu a espingarda e fez pontaria.
O veado voltou-se, apresentando-se de lado. Wilhelm atirou e o 
animal tombou entre os arbustos prximos.
No mesmo instante, ouviu-se um grito e ele
viu que uma mulher cambaleava no meio do prado. Ela deu alguns 
passos e caiu sobre a erva.
Wilhelm desceu a correr do talude e precipitou-se para o corpo 
cado, inanimado. AjSelhou-se
junto da mulher, cuja respirao mal se sentia.
"Louvado seja Deus, est viva. No a matei. "
Viu-lhe o rosto.
- Amlia! Que faz aqui? Julgava que tinha ido
 festa! Amlia! Por favor, diga qualquer coisa!
Amlia estava com tanto medo que receava
desmaiar a srio. Em que sarilho se metera? Ele
ia acabar por descobrir que ela estava a fingir.
No ficara ferida.
E agora ele desabotoava-lhe o vestido e metia

a mo pela abertura! Os dedos dele tocavam-na... Wilhelm tirou a 
mo e encostou a cabea
no peito da jovem que se esforava por manter
os olhos fechados. Quando era criana e tinha
que dormir a sesta, a governanta, a senhora
Wendevogel, sabia sempre se ela estava a dormir
ou fingia, pois quando os olhos se mexiam sob
as plpebras denunciavam-na.
Wilhelm levantou-se, de sbito, soltou um suspiro e desatou a 
rir. Ergueu a rapariga, sem grandes 
cuidados, atendendo a que era de supor que ela 
estivesse ferida, e atirou-a sobre o ombro, com as 
pernas penduradas sobre o seu peito e a cabea cada 
sobre as costas. Pegou na arma e ps-se a caminho.
Os acontecimentos tomavam um rumo que Amlia 
no tinha previsto. Quisera apenas chamar-lhe a ateno 
para que ele futuramente no continuasse a ignor-la e 
desejara, tambm, castig-lo por ter recusado aceitar o 
convite cuja obteno lhe dera tanto trabalho. Mas ele 
aproveitara logo para lhe enfiar a mo no decote...
Wilhelm continuava a caminhar pelo bosque, com a 
sua estranha caa ao ombro. Quando chegaram perto 
da cabana que Wilhelm bem conhecia, Amlia fingiu que 
recuperara os sentidos, mas ele pareceu nem dar por 
isso; pelo contrrio, acelerou o passo. E ela que julgara 
senti-lo emocionado quando se debruara sobre si! 
Puxou-lhe pelo casaco. Ele parou, admirado.
- Ol! Acordou?
- Assim parece, seno no lhe teria puxado pelo 
casaco.
Ele pousou-a no cho. Como era forte! J de p, 
ainda pensou em fingir novo desmaio, mas no foi 
capaz. Ele fitava-a, com os olhos perigosamente 
cintilantes.
- Mas ento, no est ferida!
- Tive medo e desmaiei. Voc atirou sobre mim.
- No digas asneiras, no costumo fazer pontaria sobre as 
raparigas. Alis, gostava de saber o que estavas a fazer na minha 
propriedade.
- Eu... andava a tomar ar! Senti-me mal durante o caminho 
e... ento, quis dar um passeio.
Pois, foi isso. Quis passear.
- De noite?
Amlia tinha conscincia da inverosimilhana
da sua histria e ps-se a chorar. E pensar que
Wilhelm von Pluttkorten at tinha tido a audcia
de a tratar por tu!
- E como  que o Hermann te deixou andar
por a de noite? Vem c, entra na cabana. Vou
buscar o guarda-florestal e a mulher, que tomaro conta de ti.
Ela enfureceu-se e gritou:
- E o que foi que lhe deu para se pr a disparar sobre as 
pessoas?
Ele respirou com fora. Ela conseguira abal-lo. Amlia, 
percebendo isso, apressou-se a acrescentar:
- Vou contar ao meu irmo!
Ele pegou-lhe na mo e conduziu-a  cabana.
F-la sentar num incmodo banco que estava a

um canto, acendeu o candeeiro de petrleo, curvou-se, aproximando 
o rosto do dela, e fitou-a.
Amlia sentiu-se pouco  vontade. Wilhelm estava plido.
- Vi um veado de oito galhos e disparei sobre ele. Tenho a 
certeza de que lhe acertei e suponho que esteja cado algures na 
floresta. Tinha as hastes em mau estado.
Ela levantou-se.
- Ser que eu tenho ar de veado com a armao em mau estado? 

Wilhelm parecia furioso: com Amlia, consigo prprio e com 
Hermann, que decerto naquele momento se divertia a mordiscar 
amendoins em Mollendorf. Quem poderia saber o que aquela garota 
trazia na cabea? Wilhelm von Pluttkorten
tinha o pavor das complicaSes femininas, sentia-se muito melhor 
entre os cheiros do tabaco de cachimbo, da estrebaria e do 
estrume. O perfume de Amlia perturbava-o. E por que diabo
aquela maluca se agarrava ao seu pescoo e lhe
murmurava ao ouvido: "Ah! Wilhelm!>)?
Ela aproximou os lbios da sua boca e ele no
conseguiu resistir-lhe e puxou-a para si, abraando-a e 
beijando-a.
A custo, caiu em si, segurou-a pelos ombros
e olhou-a com ateno.
- Vou chamar a senhora Knobel- disse.
Era a mulher do guarda-florestal. Wilhelm
saiu da cabana. Amlia estava desejosa de se ir
embora antes que estranhassem a sua longa ausncia. Comps-se um 
pouco. Tudo estava perfeito, excepto o ter perdido a capa. Era 
embaraoso, mas no havia nada a fazer. Curvou-se e
acariciou a mesa de carvalho onde Wilhelm
apoiara a mo momentos antes. Algo acordava
nela, uma perturbao, um desejo.
Apagou o candeeiro e esgueirou-se para fora
da cabana. A floresta, que antes lhe parecera sinistra, agora 
apresentava-se-lhe acolhedora e
agradvel. O agitar da folhagem tornara-se cmplice, a Natureza 
parecia respirar amor.
"Tal como eu", pensou Amlia. "Mas agora
terei que inventar uma boa desculpa para a minha querida senhora 
Wendevogel. Ora! Hei-de
lembrar-me de alguma coisa."
Tudo aquilo era constrangedor para Wilhelm,
que no queria parecer ridculo aos olhos do pessoal da casa, e 
agora tinha de ir acordar o velho
casal Knobel, de noite, para lhes pedir que fossem buscar a 
menina Ritter, que se perdera na
floresta e estava  espera deles na cabana. Mas
que histria! Toda a gente sabia que era impossvel que Amlia se 
perdesse assim, pois conhecia
to bem a regio.
Wilhelm acordou o casal, batendo na janela.
Explicou, com uma voz que esperava parecesse
segura:
- A jovem parecia perturbada.
O guarda levantara-se e vestira-se rapidamente, enchendo os 
bolsos de cartuchos, e depois
abrira a porta. Foi um choque para ele ver assim

o baro na sua frente, pois pensara que se tratasse de um 
guarda-florestal que viesse em busca de ajuda para se ocuparem de 
algum caador furtivo.
O senhor Von Pluttkorten no tinha o hbito
de lhe fazer visitas a meio da noite.
- O que se passa, senhor baro? Aconteceu
alguma coisa de anormal?
- At acertou, meu caro Knobel.-Wilhelm
respirava ruidosamente. - Se voc soubesse o
que ainda no sabe, ficaria a saber que eu no sei
nada.
- Tambm me parece.
"Que Deus nos acuda", pensou Knobel, (o
senhor baro no est bom da cabea!" Observou-o disfaradamente 
e reconsiderou: "Deve estar embriagado, com certeza. Estes 
cavalheiros
precisam de estimulantes de quarenta e cinco
graus antes de sarem para caar. Dizem que faz
boa pontaria..."
- Ficaria grato se a sua mulher se encarregasse da jovem, 
Knobel-prosseguiu Wilhelm.
- A minha mulher est com uma crise de gota, ningum 
consegue tir-la da cama-respondeu Knobel.-Quando tal acontece, 
ela fica insuportvel, uma autntica megera.
Knobel espalhava  sua volta um cheiro forte
de tabaco e madeira velha. Wilhelm acenou com
a cabea.
- Bom, ento vamos sem a sua mulher.
Puseram-se a caminho atravs da floresta
imersa na obscuridade e Wilhelm continuou a narrativa.
- Estava eu  espera de um veado, junto do
campo de trevo, quando surgiu um de oito galhos. Fiz pontaria, 
atirei` e o veado, atingido, tombou entre os arbustos. (>uvi 
algum gritar e a menina Ritter saiu do arvoredo e desmaiou na
erva. Atrapalhei-me e quase ca do stio onde me
encontrava. Ora a rapariga, agora, afirm que eu
atirei sobre ela, confundindo-a com uma pea de
caa! Eu! Voc acredita numa coisa destas?
Knobel sacudiu a cabea e pensou: "Tudo 
possvel. "
- E depois?
- Agora - disse Wilhelm - ela est na cabana.  evidente que 
receava ficar sozinha comigo. Preciso da sua companhia para levar 
a menina Ritter a casa. Mas seja delicado, Knobel,
para que no tenhamos mais aborrecimentos. Entendeu?
- s suas ordens.
Quando entraram na cabana, fracamente iluminada, esta estava 
deserta. Knobel pensou que a
sua suposio estava correcta: o baro tinha abusado da 
aguardente. Depois sentiu no ar o perfume de Amlia.
- Foi-se embora-disse Wilhelm. -Conhece este perfume?
Knobel tirou o bon.
- Eu no, no percebo nada dessas coisas.
Um amigo do meu filho, em Braunschweig, usa
Couro da Rssia...
- Que cheiro! At enjoa. E ps-se a mexer,
mas primeiro tornou a pr a garrafa de schnaps
na prateleira. Penso que, com isso, queria mostrar a sua 
desaprovao.

Deixou-se cair sobre um banco, o mesmo
onde Amlia se sentara. Lembrou-se dela, desta
vez sem clera. Era bem bonita... Tinha tido
uma atitude encantadora, ao lanar-lhe os braos
ao pescoo... Fitou o guarda, sentado  sua frente.
- Knobel, seja sincero, ao menos desta vez.
- Sobre o qu, senhor baro?
- Por favor, responda com franqueza. Como  que me acha?
- Porqu?
Knobel no sabia como livrar-se de tal embarao.
- Acredita, realmente, que eu tenha metido
medo  Amlia? Ela pensaria, de facto, que eu
quis atirar sobre ela?
Knobel no sabia o que dizer: se dissesse a
verdade, o patro ficaria zangado; se a no dissesse, 
sentir-se-ia humilhado... Fez um esforo
para responder com tacto:
- Talvez o senhor baro impressione as mulheres...
- Que disparate!
Wilhelm apoiou a cabea entre as mos.
A pequena Amlia no parecia ter ficado assim
to impressionada. Amlia... Que nome bonito!
Sorriu sem dar por isso.
- Knobel, passe-me o schnaps e dois copos.
Recordou novamente o momento em que tinha pousado a mo 
sobre o corao da jovem.
Percebera imediatamente que ela no estava ferida, tivera medo, 
mais nada. E ele achara-a to
sedutora e comovente que sentira a necessidade de a levar para a 
cabana. "De qualquer modo, demorou um certo tempo a protestar", 
pensou. Bebeu um copo de schnaps.
- No  de admirar que ela tenha fugido, eu
no fui l muito delicado. Afinal de contas, ela 
a irm do meu melhor amigo e pertence a uma excelente famlia. 
Ela prpria  bonita, ou melhor,  bela, espirituosa, 
encantadora! Meio mulher, meio mida endiabrada.
Knobel sorriu e Wilhelm sentiu que corava. Beberam 
ainda mais uns copos. Foi uma noite agradvel e uma 
manh difcil. Atravessaram a floresta, com a cabea a 
andar  roda e as pernas pesadas,  procura do veado abatido.
Estava um tempo magnfico. Os raios de sol 
passavam atravs da ramagem das rvores e faziam 
cintilar as gotas de orvalho. Sentia-se o cheiro spero da 
terra. A cada passo, os dois homens afundavam os ps 
no cho amolecido pela gua.
Wilhelm von Pluttkorten deteve-se, de sbito, e deu 
uma cotovelada a Knobel.
- Meu velho Knobel, voc vive na floresta desde a 
mais tenra idade e, contudo, h uma coisa que ainda no 
conseguiu compreender: no seu lugar, apagaria esse 
cachimbo malcheiroso sempre que andasse a passear na 
floresta em to bela manhA.
Knobel puxou ainda uma fumaa, antes de apagar o cachimbo.
- De qualquer modo, prefiro o cheiro do meu 
cachimbo ao perfume da sua cabana!
Esse perfume fazia tambm lembrar a Wilhelm a 
maciez de uma certa ctis, a doura de uma certa boca...

-  uma questo de gosto, Knobel.
Mas ele perdera o aprumo, e a culpa no era ' do 
schnaps...

2

Amlia von Pluttkorten sorria para o seu
querido Wilhelm. Quem a olhasse adivinharia
que linda rapariga tinha sido. A brincar, disse:
- No foi assim to fcil conquist-lo. Dizia-se que ele 
preferia uma bela gua a uma mulher bela! O meu irmo Hermann j 
me tinha avisado sobre isso! No entanto, aceitou ajudar-me. Essa 
ser a continuao da histria, caso estejam interessados nela. 
Mas por agora, se fizerem o favor, vamos para a mesa. J todos 
temos um certo apetite, no  verdade?
Atravessaram o vestbulo. Wilhelm von
Pluttkorten mostrou a sua poltrona de sulto e
depois, com ar importante, fez-lhes sinal para se
aproximarem e abriu a porta da sala de fumo.
Reinava ali uma atmosfera aconchegada com
madeiras de carvalho por toda a parte e muito
couro na decorao. Espessos cortinados ocultavam as janelas e 
uma parede inteira estava coberta de trofus de caa. Laura achou 
aquilo horrvel. Renate conhecia aquele ambiente desde a
infncia. Wilhelm von Pluttkorten sorriu e chamou-lhes a ateno 
para a cabea de veado colocada em lugar de honra, ainda que no 
fosse a mais bela.
-  ele. Foi este o veado de oito galhos da
nossa histria - explicou. - Um alcoviteiro
original, no acham? E provou sobejamente que eu no fazia 
pontaria s Jovens, mas aos veados!
A empregada, de avental branco e touca nos
cabelos, estava atarefada na sala de jantar. A cozinheira dos 
Pluttkorten, uma mulher que sempre fora magra, trouxe o caldo de 
legumes. Foram depois servidos vrios pratos de charcutaria, um 
pat de ganso, po caseiro, carne de porco picada frita em 
gordura e uma grande bola de manteiga com sal. Para acompanhar 
estas iguarias, um vinho tinto, bem encorpado. Como sobremesa, 
uma charlotte de frambSesas.
-Noutros tempos, a esta altura do jantar eu
acendia sempre um cachimbo-disse Wilhelm
von Pluttkorten-, mas hoje, como dizem que o
tabaco  perigoso, deixei de fumar. No  verdade, Amlia?
-, sim, Wilhelm.
Ele riu.
-"Sim, Wilhelm." A ltima palavra foi;
dela! As mulheres ganham sempre... Naqueles
tempos, tentei dominar a situao. Fechei-me no
quarto, sentado na minha poltrona preferida, nem o bom Franz, o 
meu criado, podia entrar, sendo obrigado a falar-me atravs da 
porta sempre que tinha algo a dizer-me, coisa que ele detestava. 
Mas eu estava preocupado e gostava demasiado da 
minha vida de solteiro... Tem cuidado, Wilhelm!-Ps-se a rir e 
acrescentou: -O perfume da Amlia dissipara-se quando, na manh 
seguinte, voltei  cabana, e esqueci aquele encontro. As coisas 
retomaram o seu curso.
- No acho que seja preciso contar tudo isso, em 
pormenor - interrompeu Amlia von Pluttkorten.-Isto 

foi apenas um exemplo para mostrar como se pode 
vencer at um velho solteiro empedernido. E Eberhardt 
von Bercken  do mesmo gnero. Fechou-se sobre si 
prprio depois da decepo que a mulher lhe causou e 
estou convencida de que  um homem que sofre.
- Os motivos dele so diferentes dos do seu 
marido-disse Laura.-Eberhardt von Bercken  um 
homem experiente que est farto das mulheres.
-Alm disso, pelo meio vivemos uma revoluo sexual, cara 
senhora. Perdemos o verniz da ingenuidade-interveio Mike Kringel.
Procurou na expresso de Renate um sinal de 
aprovao que no encontrou.
- O truque da floresta, hoje, no resultaria, 
av-disse ela.-E a propsito, o nosso amigo por acaso tambm 
caa? - Interrogou Mike com o olhar.
-Raramente vai  caa-informou ele.
A senhora Von Pluttkorten reagiu depressa e 
energicamente:
- Temos que dar provas de habilidade e adaptarmo-nos  
situao. Trata-se de saber se desejamos lanar-nos numa 
"conspirao" O que te parece, Wilhelm?
- Os sentimentos masculinos so imutveis.. - Laura?
- No terei talvez nada a ganhar com a histria, mas tambm 
no tenho nada a perder, Portanto, estou de acordo com a 
"conspirao"
- Senhor Kringel?
- Este assunto -me desagradvel, confesso.
Mas pelo bem de Eberhardt e da minha querida irm...
A senhora Von Pluttkorten interrompeu-o
- Ento  sim, ou no?
-  sim.
- Renate, minha querida?
- Av, a sua histria era encantadora e at
eu gostaria de viver algo de semelhante. Por isso,
aprovo o projecto.
- De repente, tenho a impresso de ter vinte
anos-disse Amlia von Pluttkorten. -Teremos que agir com tacto e 
habilidade para no estragar tudo.
- Tanto pior para ele! - exclamou Wilhelm
von Plu pttkorten. - A mim tambm ningum
me deu qualquer hiptese!
- O que vamos fazer?
Renate e Mike tinham formulado a mesma
pergunta ao mesmo tempo.
- Talvez fosse melhor ouvirmos o fim da
histria primeiro, se isso no os aborrece-opinou Laura.
Amlia von Pluttkorten sorriu.
- Geralmente, tenho sempre receio de enfadar as pessoas com 
estas velhas histrias, mas
hoje  diferente: para minha consolao, estou
perante um pblico unnime.
Quando se reuniram todos novamente, junto
da lareira, que lanava uma claridade familiar sobre os rostos e 
os objectos, souberam como, naquela poca, a av Pluttkorten se 
entendera com o av.

Sim, a vida continuou tranquila, em Pluttkorten e, no 
entanto, qualquer coisa tinha mudado para o dono da casa. No se 
tratava do seu padro de vida, mas do seu comportamento...
Enquanto antes passava serSes inteiros a ler uma
revista de caa ou um romance de Fontane, a ouvir rdio, 
saboreando o cachimbo e uma garrafa
de schnaps, agora aborrecia-se de morte. Se faltavam ainda trs 
dias para chegar o prximo sero,
que passaria-entre homens-na companhia
de Hermann, j se sentia impaciente. O que estava a 
acontecer-lhe? Seria o peso da solido?
Nostalgia? Abanou a cabea, descontente. Era Um homem, um homem 
de verdade, tinha necessidade de um amigo, mas no podia 
tornar-se escravo de uma mulher.
"Era s o que me faltava!", pensava.
Preferia admitir que a sua m conscincia lhe
tinha pregado uma partida. Assustara a pobre
Amlia Ritter com o tiro e lamentava ter-se mostrado tambm 
desagradvel para com ela. Mas no conseguia libertar-se da ideia 
de que tinha de obter o seu perdo.
Mais sereno, disse para consigo:
"J sei como vou limpar este peso da conscincia.  muito 
simples e nada comprometedor."
Mandou atrelar o cabriol e partiu para Engenstedt.
Dirigiu-se  drogaria do velho Fiebig, mas
no era ele quem se encontrava atrs do balco.
Talvez agora considerasse tal tarefa indigna dele!
Uma interessante rapariga, que lhe parecia j ter
visto em qualquer lado, perguntou-lhe delicadamente o que 
desejava.
Ele tossiu, para ganhar coragem, e perguntou, em voz forte:
- Tem um perfume com essncia de flores?
Queria um aroma fresco como um jardim, no
Vero, depois da chuva.
-H vrios que podero servir.
-  para oferecer-adiantou Wilhelm.
Receou que a jovem imaginasse que ele ia
comprar um perfume para si.
- Para uma jovem, ou para pessoa de certa idade?
- Jovem, muito jovem. E bonita...
Corou ao pronunciar estas palavras.
- Flores, um jardim depois da chuva...
Hum... Creio saber o que pretende.
A rapariga tirou um frasco de uma gaveta e
com o vaporizador deitou-lhe um pouco de perfume sobre as costas 
da mo. Cus, como aquela
situao era embaraosa! Ele at seria capaz de comprar leo de 
automvel queimado, se isso o fizesse sair mais depressa da loja. 
Quando aspirou o perfume, sentiu-se perturbado, e por pouco no 
suspirou. Devia ser aquele perfume.
- Quero um frasco grande.
- Chama-se Quelques Fleursl. Quer que 
faa um embrulho bonito, com uma fita cor-de-rosa, 
visto que  para uma jovem?
Antes que ele pudesse responder, entrou a mulher 
do padeiro, como um furaco.
- No  preciso - disse ele. - Quanto devo?
Meteu o frasco no bolso. O preo parecera-lhe 
astronmico: daria para alimentar as suas galinhas 

durante uma semana. Mas o perfume era envolvente... 
Sentiu-se satisfeito por ter levado a cabo aquela 
compra... comprometedora.
Mas no terminara ali o seu calvrio. Quando ia a 
subir para o cabriol, deu de caras com o seu amigo 
Hermann.
- Ento, velho traste, o que te trouxe hoje  
cidade? Julgava que s c vinhas  quinta-feira. 
Costumas ser um homem de princpios, no  verdade?
- H momentos em que a tua solicitude se torna 
asfixiante-retorquiu Wilhelm.-Tinha coisas para 
tratar,  tudo.
Apertaram as mos e foi ento que Hermann se ps 
a inspirar profundamente, farejando o ar como um co 
de caa.
- Diz-me l, Wilhelm, desde quando  que
tu te perfumas?
Wilhelm corou.
- No digas disparates. Sabes os meus gostos!
- Evidentemente, mas o meu olfacto garante-me que tu 
espalhas aromas de estufa. Sim, 
um cheiro de rosa e de lils. Wilhelm, meu velho! O que se passa 
contigo?
- Nada. No gostas deste cheiro?
- O problema no est a...
- De facto, quero oferecer este perfume a
uma jovem. Para ser mais preciso,  tua irm.
Recentemente tivemos uma... enfim, no sei se
ela te falou nisso. Eu no tive a culpa, podes
acreditar, juro-te sobre a cabea do meu cavalo
preferido! Mas como a assustei, quero oferecer-lhe um perfume, 
para obter o seu perdo.
O que queres? No sou um labrego; conheo a etiqueta.
Hermann acenou com a cabea.
- Como queiras, meu amigo.
Wilhelm props:
- At podias ser tu a levares-lhe este frasco,
com as desculpas que eu deponho aos seus ps.
Deste modo, o assunto ficar resolvido.
- Ests maluco ou qu?
- Por uma vez que tento conduzir-me como
um cavalheiro, no me encorajas nada...
- Ters que ser tu a levar-lho e a pedires
desculpa pessoalmente.
- Tambm no exageremos!
- Wilhelm!
E Wilhelm olhou o amigo com ar suplicante. 
- Hermann, bem sabes que toda esta histria me custa 
bastante. Peo-te que me ds uma ajuda!
E, dizendo estas palavras, enfiou o frasco na 
algibeira de Hermann, que no conseguiu evitar o riso.
- Est bem-anuiu-, vai-te l embora antes que 
eu mude de opinio. Direi  Amlia que ests 
desesperado e lhe suplicas que te perdSe.
- Diz-lhe tudo o que entenderes. At depois de amanhA.
E desapareceu, rapidamente.
Hermann apressou-se a fazer as compras, 
impaciente por ver a cara de Amlia quando lhe 

entregasse o perfume.
E, na verdade, o efeito foi impressionante. Amlia 
corou e pegou no frasco. Parecia muito comovida e o 
irmo nem duvidou mais de que ela estava apaixonada 
pelo amigo.
Hermann acariciou-lhe os cabelos.
- V l, no o mostres  senhora Wendevogel. O 
Wilhelm agrada-te, no  verdade?
Ela baixou a cabea e sussurrou:
- , Hermann...  horrvel!
- Nesse caso, reflictamos! Deixa-me pensar. A 
senhora Wendevogel parte amanh para passar alguns dias em casa 
da tia. No podemos deixar Eque o 
Wilhelm nos tome por parvos.
- De qualquer maneira, ele no se interessa por 
mulheres, Hermann.
O irmo deu uma risada.
- No  essa a minha opinio. Pelo contrrio, at se 
interessa de mais, mas tem medo delas e receia os seus 
sentimentos...
Amlia suspirou.
- Ah! Se isso fosse verdade! Sim, vamos pensar.
O plano que traaram, arriscado, prometia
ser um sucesso, pois adaptava-se perfeitamente 
pessoa de Wilhelm von Pluttkorten.
Hermann Ritter, logo no dia seguinte, dirigiu-se  casa do 
amigo. Entregou o cavalo a Jupp, o moo de estrebaria, e entrou 
no escritrio de Wilhelm, onde o encontrou debruado
sobre papis e facturas, com ar sombrio e preocupado. Wilhelm 
nunca apreciara muito as burocracias.
Gostava da sua propriedade, do gado e, acima de tudo, de 
Rudolf, o seu cavalo malhado.
Amava a brisa estival e o vento que fazia ondular
as espigas nos campos. Amava a liberdade, o seu
pequeno conforto... Mas desde h pouco tempo
experimentava um sentimento novo, muito mais
forte do que tudo o resto. Quando pensava nos
"primeiros socorros" que tinha proporcionado a
Amlia, recordando a pele da jovem, o contacto
com a sua mo, a boca, os olhos dela, aquele
perfume de flores, sentia-se perturbado.
"Isto  uma parvoce", pensava. "No sei
apreciar devidamente as coisas boas da vida.
Uma fada cruzou o meu caminho e eu portei-me
como um gnio do mal. Sou um labrego, um
selvagem, que s serve para andar pelos bosques.
Beijo aquela rapariga e fujo, assim, sem uma palavra. O que 
pensar ela de mim? Despreza-me? Amlia!"
E ps-se a gravar o nome dela na madeira da
secretria. Fez o entalhe com fora e j no conseguiu faz-lo 
desaparecer... Do mesmo modo
que no conseguia dissipar a recordao daquela
noite. Aquela noite... Aquele rosto... E aquela
voz... Tudo se gravara dentro de si e perseguia-o. Era, ao mesmo 
tempo, doloroso e deliciosamente perturbador.
"Amlia! E afinal, conheo-a desde sempre,
desde que era criana. Meu Deus, estarei a apaixonar-me por ela, 
assim, sem o prever, a ponto

de perder todo o bom senso? Ser possvel experimentar um amor 
fulminante? A Amlia  irm do Hermann. Seria ridculo no lhe 
contar o meu estado de esprito. Ningum melhor do que ele
conhece os sarcasmos com que, habitualmente,
costumo mimosear as mulheres."
Corou ao recordar a frase que lhe era to grata: "Prefiro 
uma gua de boa raa  mais bela das mulheres", ou algo no 
gnero. Wilhelm j se trara bastante com aquela histria do 
perfume, e Amlia, afinal, era demasiado jovem, demasiado
vulnervel para um homem rude como ele.
"O tempo se encarregar de tudo", pensou.
"Sob pretexto algum vou aparecer em casa dos
Ritter nos tempos mais prximos. O melhor seria partir para uma 
viagem, por uma semana, depois de explicar a Waak tudo o que h 
para fazer." Nesse momento, Hermann entrou.
- O que vens c fazer?
O tom da pergunta nada tinha de amvel.
- Queria contar-te a reaco da Amlia quando lhe 
entreguei o teu perfume.
- Podias ter-me telefonado. Preciso de tra balhar.
- Est bem; se reages assim, vou-me embora.
- No te faas de parvo. Senta-te, ento... O que 
disse ela?
Hermann esfregou as mos de satisfao.
- Para ser franco, no disse nada.
- E de que me serve isso?
- Mas ela sorriu... Foi um sorriso que tanto podia 
ser o da Gioconda como o da Santa Teresa, se entendes 
o que quero dizer...
- Ah, sim, ela sorriu?-Wilhelm teve dificuldade em 
suster o riso.
Hermann continuou.
- Depois ela... Lembras-te da cmoda de carvalho 
da entrada? Abriu a primeira gaveta e atirou o frasco l 
para dentro, tornando a fech-la com uma pancada seca.
- Sim...
- Depois, foi-se embora.
- E no disse mais nada?
- No. Enfim, quase nada.
- Por exemplo?
- Wilhelm, no poderia jur-lo, mas pareceu-me 
que ela murmurou a palavra "imbecil", ou talvez tenha 
dito apenas "Cecile"...
- Existe uma Cecile nas vossas relaSes?
- Que eu me lembre, no. Mas com as mulheres nunca temos a 
certeza seja do que for. Sabes isso to bem como eu, pois  voz 
corrente que preferes uma bela gua  mais bela das mulheres.
- Agora, chega! No vais perturbar-me 
constantemente durante o meu trabalho, pois no?
Hermann olhou para a mesa e reparou no nome de 
Amlia que Wilhelm a acabara de gravar. Este esperava 
que o amigo no o tivesse notado e fez escorregar uma 
folha de papel sobre o nome que podia atraio-lo. 
Hermann preparava-se para sair.
- Voltarei quando estiveres de melhor 
humor-disse.
Na realidade, o objectivo da sua visita no se 

relacionava directamente com o amigo. Hermann 
acabara de ter uma conversa com dois membros do 
pessoal de Wilhelm, Franz e Stine, a cozinheira. Uma 
nota de banco mudara de mos no decurso da 
conversa. Stine fizera vnias e Franz recebera o dinheiro 
sem dizer palavra, mas garantira a Hermann a sua ajuda. 
A quantia era razoavelmente importante. O "plano 
Wilhelm" podia arrancar. Mas foi por pouco que as 
coisas no correram mal. Amlia j no estava de 
acordo com o plano.
    - Bem merecia ficar algum tempo em banho-maria, esse Von 
Pluttkorten, no era?- dissera-lhe 
Hermann. E tinha-a encorajado, embora a irm tivesse ainda 
algumas dvidas.
- Se ao menos no deitarmos tudo a perder!
- Acredita em mim, Amlia, eu conheo o
Wilhelm. Ele precisa de ser espicaado, ou nunca
acontecer nada. No vais desanimar, to prxima do fim...
Ela suspirou.
- Est bem, aceito.
- Comeas a ser razovel. Vem c, para eu
te desejar boa sorte.
Amlia aproximou-se e ele traou na sua direco um pequeno 
sinal misterioso, para esconjurar as foras negativas.
O encontro deu-se na aldeia de Pluttkorten,
em casa dos pais de Stine, que habitavam uma
casinha rodeada por um jardim, com capSeiras,
coelheiras, uma pocilga e cabras presas  beira do caminho.
A famlia possua tambm um bocado de terreno e todos os 
seus membros trabalhavam na propriedade, conforme as 
necessidades. Stine era a quarta de cinco filhas. O pai, Aurich, 
no tinha filhos varSes.
A me parecia preocupada e reprovava a iniciativa de 
Hermann.
- Esperemos que a nossa Stine no faa com
que a despeam-lamentava-se.-Se o patro
soubesse ficaria furioso; sai ao pai, que s vezes
tinha cleras terrveis.
Nem a prpria Amlia se mantinha segura de
si, mas esforava-se por mostrar um ar calmo.
Tranquilizou-a:
- No se aflija, senhora Aurich. Trata-se
apenas de uma pequena brincadeira inofensiva que o meu irmo e eu 
preparmos. O prprio baro vai achar graa.-Para acabar de a 
convencer, acrescentou: 
-  uma surpresa para o seu aniversrio.
Amlia acabava de dizer uma mentira piedosa, mas 
que achava justificada. No estavam a agir para o bem de Wilhelm?
A principal personagem da operao esteve muito 
perto de renunciar ao papel que lhe fora distribudo.
- No, no vou fazer isso!-teimava Stine. -Tenho muito medo 
do senhor baro!
Amlia conteve-se para no acrescentar: "Eu 
tambm no farei nada."
Mas, pelo contrrio, fez notar a Stine, com firmeza:
- S que j aceitou o dinheiro...
- Torno a dar-lho.

- Pois claro! Ela devolve o dinheiro - apoiou a 
me, com a nfase de um coro de tragdia grega...
Amlia reflectiu. A rapariga parecia ter realmente medo e a 
me receava que a conspirao lhe custasse o emprego. Porm, no 
era possvel recuar. Hermann j tinha telefonado a Waak, que 
estava tambm por dentro do segredo. Este aceitara:
- Vou consentir porque sei bem que o senhor 
Ritter nunca prejudicaria o senhor baro.
o telefone, Waak, alis, falara em tom comedido, 
ele que, habitualmente, berrava to alto como as 
trombetas de Jeric.
Amlia tentou lembrar-se dos mtodos da sua
querida governanta, senhora Wendevogel, que
sabia como ningum convencer a garota insubmissa que Amlia tinha 
sido. "O que  preciso 
impor-se", teria dito a senhora Wendevogel.
Amlia tentou fazer-se mais alta do que era; sem
resultado, pois Stine era mais corpulenta e mais
alta do que ela. Ento, Amlia olhou-a fixamente
e baixou a voz, dizendo com certa rudeza:
- Stine, oia-me. A senhora Aurich tambm. O baro alguma 
vez a observou atentamente? Conhece bem as suas feiSes? Acredite 
que ele no vai sentir a sua falta. Basta que me
empreste roupas suas e que desaparea durante
um ou dois dias. O senhor Waak est de acordo
e o senhor Franz tambm no se opor. Agora,
vai dar-me a sua saia, a bata, o avental e tudo o
que costuma usar. Depois, explique-me quais so
as suas tarefas.
Stine conseguiu sorrir.
-Nunca vai conseguir.
- Quando  preciso, tambm sei sacrificar-me. Para que tudo 
se torne mais fcil para si, vou propor-lhe uma coisa: creio que 
gosta do Jupp, no  verdade?
- Eu... Sim,  verdade. -E corou.
- E, se bem compreendo, ele nunca mais se decide...
- Ele d ateno s outras raparigas...
- Se voc me deixar ocupar o seu lugar em
casa dos Pluttkorten, durante dois dias, ofereo-lhe um enxoval 
completo.
- Oh!
- E hei-de falar com o Jupp, tentando convenc-lo. 
Certamente que o enxoval vai ajudar a que ele se decida. Mas, 
acima de tudo, guarde segredo. A senhora Aurich igualmente. O seu 
marido est ao corrente disto?
- Que ideia! Quanto a mim, os homens no
devem saber tudo. E o meu at tem mau gnio,
como sabe.
- Pois bem. Ento podemos comear-decidiu Amlia.
Vestiu as roupas de Stine, que eram grandes
de mais para ela, mas graas ao avental conseguiram dar ao 
conjunto um aspecto mais ou menos convincente. Apenas a saia era 
demasiado comprida.
- Veja l, tenha cuidado, no pise a saia. - recomendou a 
senhora Aurich.
Amlia teve que conservar os seus sapatos,
pois os de Stine eram alguns nmeros acima e,
mesmo com pegas, davam-lhe ar de palhao

trapalho, o que provocou o riso da jovem empregada.
Amlia tomou ainda emprestado um leno de
lA para a cabea e depois saltou para a bicicleta, a
caminho da propriedade de Pluttkorten.
O seu primeiro trabalho foi pr a cozer as batatas 
destinadas aos porcos e esmag-las, com a
pele, com a ajuda de um pilo. Era difcil e fatigante, mas a 
jovem no perdeu a coragem.
Numa das bolsas da bicicleta, Amlia tinha
colocado o frasco de perfume, que estava destinado a desempenhar 
um papel determinante no plano. Wilhelm, como muitas pessoas do 
campo, era bastante sensvel aos cheiros. O tabaco e o couro, 
para ele, exalavam um perfume "viril";
o horrvel cheiro do petrleo dos candeeiros era-lhe "familiar"; 
o cheiro dos cavalos era "caloroso". Quanto aos porcos e ao 
esterco, "cheiravam a sade". Todos estes eflvios correspondiam 
a sensaSes e a sentimentos precisos, codificados. Hermann e 
Amlia tinham, pois, esperanas de
que a aco do perfume provocaria em Wilhelm
um estado de esprito especial. Amlia tratou
de aspergir com o contedo do frasco os lugares por onde ia 
passando! Franz at colocou um
leno impregnado de perfume no escritrio de
Wilhelm. Quando a "nova" Stine levou legumes,
do quintal para a cozinha, no deixou de assinalar o seu rasto 
com outros eflvios, alm dos aromas do funcho, do alho e da 
salsa.
Wilhelm passou perto dela, junto s cavalarias. O corao 
de Amlia batia fortemente e, se
pudesse, teria fugido, o que equivaleria a desmascarar-se. Por 
isso, nem se mexeu quando ele se aproximou. Pareceu-lhe que 
farejava o ar, dilatando as narinas, com ar surpreendido. Seria a 
imaginao da jovem a engan-la? Entretanto,
Wilhelm j se afastara.
 noite, saiu sem ter obtido o menor sucesso. Foi para casa 
de bicicleta, com as costas doridas. E, no entanto, para se 
divertir, como todas as crianas dali, Amlia tinha participado 
nas ceifas, empilhara medas de feno e conhecia todos os trabalhos 
da quinta.
Em casa, tomou um banho quente, embrulhou-se no roupo e 
deixou-se cair numa poltrona.
- Amanh no volto para l! Nem o melhor
dos homens vale tal sacrifcio.
- Era s o que faltava - contraps Hermann.-Amlia, agora 
no podes desistir. Se tu no fores, visto eu o fato da Stine, 
palavra de honra!
Amlia desatou a rir.
- Tem cuidado, no v ele apaixonar-se por
ti!-Hermann riu tambm. Conhecia a irm
e sabia que ela no renunciaria assim to facilmente. - Claro que 
vou continuar! s vezes, parece-me que procuras livrar-te de mim, 
como se quisesses libertar-te das responsabilidades em
relao  minha pessoa.
- Aos vinte anos, uma rapariga j deveria
ter encontrado um marido. Isso no tem nada a
ver com as minhas responsabilidades. E depois,

conheo bem o Wilhelm von Pluttkorten, admiro-o,  um tipo bem 
formado. Com as tuas artimanhas de mulher vais conseguir 
conquist-lo. Nem te faria mal nenhum seres domesticada por uma 
mo viril.
Ela encostou a cabea na poltrona.
- Vocs, os homens, so impossveis! Amanh vamos fazer 
farinha de batata, em Pluttkorten; de tarde vo algumas mulheres 
dar uma ajuda. Ainda bem...
- Aguenta, Amlia.
Hermann falara em tom paternal. Puxou uma
fumaa do seu charuto de Havana.
No dia seguinte, de manh,Amlia teve que
varrer toda a cavalaria, e foi ento que as coisas
se precipitaram. Ela estava perto de Rudolf e passou-lhe a mo 
pelo focinho. O cavalo fitou-a
com grandes olhos doces. Normalmente era bravo, mas gostava de 
Amlia, que sabia lidar com um animal difcil.
Os moos da estrebaria andavam na apanha
das batatas. Amlia ouviu passos atrs de si e
pressentiu que era Wilhelm von Pluttkorten.
- Muito bem, Stine, desde quando te atreves
a aproximares-te do Rudolf?
Ela ficou a tremer quando ouviu a voz dele.
Voltou-se e murmurou umas palavras vagas que
poderiam ser tomadas por um cumprimento.
Naquele dia, Wilhelm no estava de bom humor. Sentia-se 
obcecado pelo perfume que impregnava Pluttkorten e perguntava a 
si mesmo quem andaria a divertir-se, perfumando a quinta.
Franz jurava que encontraria o autor do "atentado"-era a 
expresso que utilizara-e Jupp dizia ter montado vigilncia, sem 
resultado.
Portanto, naquela manh,Wilhelm levantara-se de mau humor. 
Tinha sonhado que os criados da quinta andavam a passar pelos 
campos gigantescos frascos de perfume, em vez de
desinfectantes. Vestira-se e sara para o fresco da
madrugada. Respirara longamente aquela brisa
matinal que soprava da floresta e lhe parecia to
pura.
Estava fresco, mas ele gostava da limpidez
daqueles dias de Outono. De mos nos bolsos, dirigiu-se para as 
cavalarias que estavam ainda s escuras. Na verdade, queria 
certificar-se de que todos os criados da vacaria se encontravam 
nos seus postos. Dormiam num compartimento
a lado, ou, pelo menos, era l que deviam dormir, pois no 
levavam muito a srio a vigilncia nocturna.
Ouviu barulho do outro lado do tabique. Andava algum na 
cavalaria! Silenciosamente, Wilhelm dirigiu-se para l. 
Deteve-se e ficou num canto sombrio. Um odor a perfume chegou at 
si. Stine acariciava a cabea de Rudolf, que, normalmente, s o 
deixava aproximar a ele ou Jupp.
"Estou a sonhar", pensou. "E a Stine parece
diferente. No pode ser ela, de modo algum!"
A jovem voltou-se. Um raio de luz, proveniente da nica 
janela existente, iluminou-lhe o rosto. Wilhelm encostou-se  
parede.
"Mas ... No, no estou a sonhar,  mesmo
Amlia Ritter. Seja l porqu, est aqui,  ela
mesmo, no tenho dvida."
Avanou para Amlia, primeiro lentamente,
depois em passo firme.

- uito bem, Stine, desde quando te atreves
a aproximares-te do Rudolf?
Ela estremeceu. Wilhelm sorriu, com ferocidade. A jovem balbuciou 
algumas palavras incompreensveis. Ele gritou:
-Stine  aproxima-te um pouco...
 la obedeceu, a medo.
- Dize-me l, s tu que espalhas este perfume por todo o 
lado? Parece que estamos numa florista.
Ela acenou afirmtivamente, sem dizer palavra.
- E onde vais busc-lo? Suponho que  caro.
Foi o Jupp quem to ofereceu?
Amlia acenou novamente.
- No falas?
- Sim
- Ora ainda bem. No ignoras que o Jupp 
um atrevido com as raparigas, pois no?
- No, senhor baro.
- E no te importas? Espero que sejas uma
rapariga sria!
- Sim, senhor baro.
- s bem bonita. O que espera esse palerma?
E levantou-lhe o queixo. Ela estava com ar
infeliz, enquanto Wilhelm tinha um ar vitorioso.
Desaparecera a sua timidez habitual, sentia-se
bem, em resumo.
Amlia tentou libertar-se, mas ele abraou-a e
puxou-a de encontro a si. Depois, debruou-se
sobre o rosto da jovem e no conseguiu reter um
suspiro enquanto saboreava de novo aquela pequena boca vermelha.
- Realmente, tudo isto  muito bonito.
Nem sabia que tinha um tesouro destes na propriedade. Tu s uma 
beleza, sabes? E assim se confirm uma vez mais o ditado: "A quem 
se levanta cedo, Deus ajuda e d a mo. " Se no me
tivesse levantado a esta hora, no te teria visto e
no teria descoberto esses lindos olhos nem essa
boca. OJupp tem muita sorte...
Com um movimento brusco, apertou-a de
encontro ao peito e ela abandonou-se, como se
fosse perder os sentidos, e fechou os olhos.
Ele beijou-a demoradamente, parecendo que
no iria larg-la mais. Quando, finalmente,
abrandou o abrao, deu-lhe uma palmadinha e disse:
- Bom, Stine, vamos ao trabalho. No podemos perder aqui 
toda a manh!Volta amanh, mesma hora.
Ela fugiu a correr. Wilhelm sorriu. Tambm
estava comovido.
Amlia refugiou-se no parque. Alis, na situao em que se 
encontrava, pouco lhe importava para onde ia! Encostou a cabea a 
um tronco de rvore e ps-se a soluar. Nunca se sentira to 
infeliz. Ele beijara-a, era verdade, mas no a tinha reconhecido. 
Seria possvel? Estava escuro na
cavalaria... Estremeceu.
E assim todos se tinham enganado acerca de
Wilhelm von Pluttkorten, que no era o selvagem que se julgava, 
mas um descarado! Incrvel!
Beijava as mulheres sem as olhar e aproveitava

todas as ocasiSes que lhe apareciam. No lhe metera a mo no 
decote, da outra vez com o pretexto de lhe prestar os primeiros 
socorros! Nem queria pensar em tudo isso.
"E eu, feita uma idiota, acreditei nele e hoje
nem sequer me defendi. Ele devia estar j pronto
para fazer o pedido de casamento, com tanto
perfume que esbanjei desde ontem! Ora esta! Esperava tudo menos 
uma cena de seduo. Antes
v-lo fugir... Mas no. Ele , realmente, um
atrevido e eu deixei-me beijar como se fosse a
Stine. Inacreditvel!"
Amlia nunca mais se atreveria a olhar Stine
de frente. Com que cara ficaria a rapariga se
Wilhelm, sem mais nem menos, a abraasse?
E continuou, falando consigo mesma: (E ele
nem sequer dar pela diferena. Alm disso, esta
histria vai comprometer as relaSes entre a Stine e o Jupp e a 
responsvel sou eu e o Hermann. Foi ele quem teve esta ideia. Meu 
Deus! Sou to infeliz! Voltarei para casa e nunca mais porei os 
ps em Pluttkorten!"
Hermann abanou a cabea quando a irm lhe
contou o desaire que acabara de sofrer. Contou o
beijo, sem se lamentar demasiado. Na sua narrao, tinha sido um 
breve beijo furtivo, e no foi capaz de lhe esconder que ele a 
confundira com Stine.
- Vou telefonar-lhe e sond-lo um pouco, para saber como vo 
as coisas-disse Hermann. -Sabes, Amlia, tenho a impresso de que 
h algo de errado nisso tudo. Estou tentado a acreditar que o 
Wilhelm estava a fingir para nos castigar pela nossa aldrabice...
O telefonema no lhe forneceu qualquer novo elemento de 
informao. Foi Franz quem atendeu. O senhor baro estava ausente 
e s regressaria no dia seguinte.
- Onde  que ele foi?
Ao fazer esta pergunta, Hermann esperava
obter informaSes detalhadas de Franz, depois da
gratificao que lhe dera, mas Franz limitou-se a responder:
- Senhor Witter, no posso dizer-lhe mais nada, pela simples 
razo de que eu prprio nada mais sei.
- (Aqui est um patife completo! ", pensou Hermann.
Estava furioso e prometeu a si prprio desforrar-se do 
sucedido na primeira ocasio. Era
inconcebvel um servial que ignorava onde se
encontrava o patro, e Franz provavelmente sabia mais do que os 
outros. Em tempos normais, era uma verdadeira agncia de 
informaSes!
- Ele no est-disse Hermann.
- Pouco me importa. Talvez tenha ido visitar amigos, na 
cidade. Seja l como for, no quero voltar a v-lo.
Amlia tinha vontade de chorar.
"Est tudo perdido, completamente perdido!"
Talvez tivesse sido melhor no ter tentado
nada. Bem lhe tinham ensinado, no colgio, que
uma jovem bem-educada nunca deve dar o primeiro passo, nem o 
segundo, ou mesmo o terceiro. Deve limitar-se a ser bonita e a 
ter um ar inocente. Em que sarilho se metera?
Hermann deu-lhe algumas pancadinhas na mo.

- No queres voltar a v-lo? Ora, ora, minha menina, no se 
muda de montada a meio do caminho e nunca se abandona um projecto 
em vias de execuo. No  preciso mudarmos de
tctica, bastar adapt-la s circunstncias. Agora, tenho que 
fazer. O teu Wilhelm, decididamente, est a tomar-me muito tempo.
- O meu Wilhelm! Fazes troa de mim!
- Nem pensar, Amlia.  evidente que
vais l voltar amanh.Ele no te marcou um encontro?
- Marcou um encontro com a Stine.
- Exactamente, e, neste momento, a Stine s tu.
- No vou. Nem pensar nisso!
- E eu digo-te que vais!
- No vou! De maneira nenhuma! Aposto
contigo a minha coleco de selos.
-  bem melhor que a guardes, Amlia. Eu
sei que tu vais.
- Nunca, nunca! Ests a ouvir?
Naquela noite, Amlia e Hermann tiveram
dificuldade em adormecer, preocupados ambos
com os mesmos pensamentos.
"H qualquer coisa de anormal nesta histria", dizia Hermann 
para consigo. "O Wilhelm reconheceu a Amlia. Sei que as mulheres 
o impressionam. Embora se mostre tmido e ingnuo, no  
propriamente um imbecil e no devia
estar assim to escuro... Partamos do princpio
de que Wilhelm sabe muito bem quem estava na
cavalaria usando as roupas da Stine e perfumada. Wilhelm  
incapaz de maldade ou de mentira, mas quis pagar na mesma moeda  
Amlia. E eu at o compreendo!"
Wilhelm, que conhecia bem Hermann, entendera imediatamente 
do que se tratava. Ambos
gostavam de se divertir e tudo, em geral, terminava com uns copos 
de schnaps. S que, desta
vez, Wilhelm no quisera entrar no jogo, era
apenas iSSO.
Fingira, assim, tomar Amlia por Stine. Fora
a sua maneira peculiar de reagir.
Hermann no era do gnero de aceitar uma
derrota e perguntava-se se Wilhelm recusara falar-lhe ao telefone 
ou se estava mesmo ausente.
Uma frase de Wilhelm dava-lhe certa esperana: "Volta 
amanhA", dissera a Amlia. E no
era homem de falar por falar.
"Tenho que convencer a Amlia a levar o jogo at ao fim." E 
adormeceu.
Amlia, por seu lado, pensava nos mesmos acontecim entos.
"Wilhelm von Pluttkorten reconheceu-me.
Eu estava perturbada e acreditei na sua confuso.
As vezes pergunto a mim mesma se conheo os homens... "
Quando ele a beijara, o leno escorregara, revelando-lhe o 
rosto, e Amlia vira os olhos claros de Wilhelm muito perto... 
Estremeceu novamente. Sentia-se frgil.
Antes de a mandar embora, ele dera-lhe uma
palmadinha. Amlia agitava-se na cama, tinha
calor. Levantou-se para abrir a janela. O cu estava lmpido e 
via-se a Lua. As estrelas brilhavam. Por detrs do ptio, as 
rvores do pomar balanavam ao vento.
"Se ao menos eu no o amasse tanto, tudo seria mais 
simples."

Encostou a fronte ao alizar da janela.
"E nem sequer posso confessar que o amo.
Ele troaria de mim." Wilhelm... Por que razo
teria ele agido daquela maneira? Porque a tratara como a uma 
criada? No lhe fora fcil desempenhar o papel de Stine e tinha 
sentido medo quando ele entrara na cavalaria.
A tristeza deu lugar  clera. Era evidente
que ele a reconhecera e tinha-a beijado para a castigar.
"Tratou-me como um objecto, como um lixo
que se atira para a valeta. Beijou-me,  certo,
mas aquele beijo no se destinava  Amlia e sim a outra..."
Rasgou o leno e atirou-o pelo quarto fora.
- Wilhelm von Pluttkorten-exclamou - previno-te: hei-de 
vencer a tua teimosia. Vou fazer as coisas  minha maneira... Nem 
que tenha de seguir-te at ao fim do mundo, hei-de saber
porque me tratas assim!
Atirou a cabea para trs, libertando os cabelos. 
Compareceria ao encontro, mas no com aquelas roupas.
- Amanh de manh,vai ser Amlia Ritter
quem se lhe apresentar! Assim mesmo!
Uma estrela cadente atravessou o cu. A jovem fechou os 
olhos e formulou um voto.
- Ama-me, Wilhelm, peo-te...
Wilhelm tambm no conseguia adormecer.
Recordava pela centsima vez a cena da cavalaria e lembrava as 
pernas de Amlia, via os seus tornozelos e os ps sem meias, nos 
tamancos. Ela tinha um belo corpo delgado, bonitos ombros. E como 
tremia, quando a segurara nos braos! Com os cabelos escuros, a 
tez plida e aquela boca, era de perder a cabea!
Wilhelm deitara-se tarde. Parecia que uma vida nova o esperava. 
Tinha tempo para dormir.
Bateu com o punho sobre a mesa e encheu
um clice de aguardente. Amlia e o irmo, Hermann, talvez 
tivessem pretendido p-lo  prova, experiment-lo! Aquela 
histria no era sria e, no entanto, Wilhelm sentia-se vexado e 
apetecia-lhe tirar uma desforra. Ps-se a rir.
"Fizeram mal em me menosprezarem. " Reparou no nome de 
Amlia, que tinha gravado na madeira. Pareceu-lhe uma palavra 
mgica, o nome mais belo do mundo, e ela era a rapariga
mais linda do mundo. S de pensar nela ficava
perturbado e comeava a acreditar que se apaixonara.
Pronunciou o nome, docemente primeiro, e
depois com mais fora:
- Amlia!
Na manh seguinte, Amlia levantou-se e
vestiu-se cuidadosamente. Ps um colete por cima de um camiseiro 
branco e calas de montar. Parecia um rapaz.
Mandou selar o seu cavalo e ps-se a caminho. Uma estrada de 
areia, que ela conhecia bem, atravessava os campos. A brisa j 
trazia qualquer coisa de outonal, a terra cheirava bem.
Ladeou um campo de colmo e,  beira de um
prado ainda envolto em bruma, viu uma cegonha retardatria. A ave 
deu alguns passos majestosos antes de levantar voo, ao sentir 
aproximar a jovem. Pareceu-lhe um bom augrio, pois dizem que as 
cegonhas do sorte...
Amlia e a sua montada chegaram  beira da

floresta, j nas terras dos Pluttkorten. Finalmente, desembocaram 
no grande ptio que levava at  escadaria da casa principal.
O que se passaria?
A casa estava ornamentada. O corrimo da
escadaria e a entrada da habitao ostentavam
grinaldas de abeto e imensas flores: rosas, crisantemos, dlias, 
perptuas...
Em todas as janelas engrinaldadas tinham colocado velas 
acesas.
Amlia conseguiu decifrar o que estava escrito em grandes 
letras vermelhas sobre o fronto
da casa: "BEM-VINDA".
No ptio, cuidadosamente varrido, havia um
recinto onde se perfilava a fanfarra dos bombeiros, composta por 
trs msicos.
Parecia que todos os habitantes da propriedade de 
Pluttkorten ali se encontravam, com fatos
de festa e ramos de flores e bandeirinhas nas
mos. Com ar constrangido, fingiam no ver
Amlia Ritter que se aproximava.
S Jupp avanou para a jovem, e ajudou-a
descer do cavalo, perguntando:
- Tambm vem dar-nos os parabns?
- Parabns de qu?
- Vamo-nos casar!
- Voc e a Stine?
- Sim. Mas no  tudo. O senhor baro Vai
casar tambm e a noiva chega hoje.
Amlia ficou como que fulminada.
- Deixe estar-disse ela.
Jupp queria levar o cavalo de Amlia para a
cavalaria. As pessoas da aldeia observavam a cena sem, 
aparentemente, lhe darem ateno. Amlia preparava-se para montar 
de novo, quando Wilhelm von Pluttkorten apareceu no patamar. Ela 
ficou com o p no estribo, sentindo-se
desesperada. Acabava de perder Wilhelm, aquele
miservel... que tanto amava!
Wilhelm von Pluttkorten envergava o seu
trajo de caa e trazia uma espingarda na mo.
Durante a noite, toda a propriedade estivera
animada por intensa actividade. Os criados haviam sido postos 
fora das camas, sem que os protestos lhes valessem. Tinham tido 
que varrer o ptio, limpar o parque das silvas e dos arbustos 
indesejveis. Jupp encarregara-se desse trabalho,
no sem pragueJar copiosamente. At fora preciso montar grinaldas 
nas rvores da lea principal
e depois na casa. Wilhelm von Pluttkorten aparecia por todo o 
lado, ora aqui, ora ali, pondo
mos  obra quando era necessrio, e trepando s
rvores para pendurar festSes. Escalou a fachada
da casa para instalar elementos decorativos.
Franz mantinha-se pronto a intervir, em baixo,
com a maleta dos primeiros socorros... Para
Jupp, aquela madrugada representava o fim de
um mundo, um mundo no qual se sentira sempre bem. Ele conhecia o 
patro e sabia adivinhar os seus humores e os seus actos, mas, 
naquele dia, Jupp fora ultrapassado pelos acontecimentos.
Na verdade, o patro anunciara-lhe:

-Vamos ter uma patroa na herdade de Pluttkorten.
E no estava a brincar! Havia, talvez, um
pouco de afectao nos seus preparativos, mas
parecia bem decidido e Jupp nunca tinha visto tal
expresso de felicidade no rosto do patro, aquela mistura de 
loucura e de excitao. E assim, tinham acabado os bons velhos 
tempos na herdade de Pluttkorten!
Jupp atirara-se com fria ao emaranhado de silvas que era preciso 
arrancar. Wilhelm surpreendera-o a beber uma golada de schnaps da 
sua prpria reserva e podia dar-se por satisfeito
por no ter sido despedido imediatamente. Apanhou apenas uma 
reprimenda, que teve como efeito p-lo a trabalhar com um 
entusiasmo nunca visto. No tardou a retomar o seu bom humor e 
ps-se a cantar a sua cano favorita: Dize-me porque so to 
belas as margens do Reno.
Quando tudo ficou terminado, Wilhelm von
Pluttkorten inspeccionou a herdade, o parque e
as instalaSes e declarou-se satisfeito. Havia flores por todo o 
lado, no ptio, em casa, na grande lea.
- O meu fato de caa! - pediu a Franz.
J estava preparado. Franz ajudou-o a vestir-se e, pouco a 
pouco, caiu numa melancolia. Em breve seria uma outra mo a 
desempenhar esse papel, uma pequenina mo branca. E assoou-se.
- Ento, Franz, o que se passa?
- Estou feliz pelo senhor baro.
Franz baixara os olhos e a voz tremia-lhe.
-Obrigado, Franz. Bem sabes que s indispensvel aqui, e 
mais o sers ainda no futuro. H alguma coisa que no est bem?
- Entrou-me pSeira para os olhos...
Wilhelm von Pluttkorten sorriu:
- No admira, h por aqui correntes de ar.
Franz dirigiu-se para o escritrio de Wilhelm e 
serviu-se de um copo cheio do conhaque preferido do 
patro, um conhaque de oito anos. E at se serviu de um 
charuto dos que ele fumava ao sero.
Quando o dia rompeu, todo o pessoal se reuniu no 
ptio para no perder aquele acontecimento excepcional: a chegada 
da noiva. A fanfarra dos bombeiros fora iniciativa de Jupp, que, 
para os convencer, lhes acenara com a perspectiva de canecas de 
cerveja  discrio.
Os primeiros raios de sol atingiam as copas das 
rvores. O horizonte tingiu-se de cor-de-rosa. As 
grinaldas e as flores brilhavam como ouro e as aves 
chilreavam. A herdade sacudia o seu torpor. Os botSes 
do casaco de Wilhelm cintilavam quando ele emergiu da 
casa e at o cano da espingarda brilhava como prata.
- Vem l a menina Ritter - disse Franz.
Wilhelm ergueu-se, de um salto.
- Vem como?
- Muito bonita.
- Como  que ela vem vestida, imbecil?
- Vem com fato de caa, evidentemente.
Franz estava curioso por saber como terminaria 
aquela comdia. Wilhelm soltou um rugido que devia 
exprimir alegria, escolheu uma rosa numa jarra, pegou 
na arma e saiu em passo apressado.

Desceu os degraus e precipitou-se para Amlia, que parecia 
petrificada junto do cavalo. At
os msicos da fanfarra se imobilizaram.
Amlia recomps-se, endireitou-se, aclarou a
voz e disse:
- Porque faz troa de mim? Vejo que est
tudo pronto para receber a sua noiva. Desejo-lhe
que seja muito feliz. Adeus, Wilhelm.
Ele estendeu-lhe a rosa.
- Um momento, por favor. Reconheo este
perfume. Por que motivo no ests na cavalaria,
Stine? Tinha-te marcado encontro l! Esperava
esse instante com impacincia!-Amlia baixou
a cabea, corou e deu por isso.-Julgavas, realmente, que eu era 
to estpido que no te reconheceria sob aquele disfarce? E como 
pudeste pensar, por um s segundo, que eu organizara
toda esta cerimnia para outra mulher que no fosse Amlia 
Ritter, que em breve se h-de chamar Amlia von Pluttkorten? 
Palavra de honra!
Rodeou com um brao os ombros de Amlia,
passou o outro sob os jSelhos dela, ergueu-a e
voltou a subir a escadaria. Ela agarrava-se ao
pescoo de Wilhelm e na outra mo segurava a
rosa que ele lhe dera.
Todos aplaudiram e a fanfarra atacou a marcha nupcial, com 
algumas ffias, mas o que valia era a inteno.
Stine, a verdadeira Stine, sara da cavalaria,
onde se tinha escondido. Jupp segurava-lhe a
mo e, com os outros, cantava a marcha nupcial.
Wilhelm, sempre levando Amlia nos seus braos, entrou em casa e 
s a deps no cho quando chegaram ao escritrio. Franz andava em 
volta, de rosto prazenteiro, mas Wilhelm mandou-o embora: 
- Vai vigiar o peixe-ordenou.
Wilhelm tomou Amlia nos braos. A situao era quase a da 
vspera e, no entanto, tudo
era diferente. Murmurou, entre dois beijos:
- Vocs bem se riram de mim. Creio mesmo que eu precisava de 
ser sacudido. Como s bonita! Tens de ensinar-me a ser mais doce, 
um pouco menos impetuoso... Acredita, Amlia, j
no posso imaginar a minha vida sem ti!
- No mudes, gosto de ti como s.
Wilhelm fitou-a. Fazia tudo com seriedade,
at no amor, este amor que o transtornava tanto
que nem sabia como exprimi-lo. O seu olhar era
to intenso que falava por si. Amlia cerrou as
plpebras. Bateram  porta. Franz entrou, com
ar solene. Trazia uma taa com po e sal.
- verdade, Franz - disse Wilhelm - Pluttkorten tem 
finalmente uma patroa.
Partiu o po e mergulhou-o no sal, depois do
que o estendeu a Amlia. Os olhos dela encheram-se de lgrimas, 
lgrimas de felicidade. Tudo comeara por uma brincadeira, uma 
brincadeira que se tornara grave, importante... Neste jogo, 
haveria dois parceiros. Wilhelm pousou a mo no ombro de Franz.
-Meu caro Franz, agora trabalhars para
ns dois. Cuida desta jovem, que em breve ser

minha esposa.  muito preciosa para mim. - Ouviram-se soar 
trompas de caa no ptio.-A esto os caadores-disse Wilhelm.- 
o grito dos caadores. Vem, Amlia, eles querem ver-te.
Saram de novo para a escadaria. L fora, os
caadores atiravam mSedas ao ar e davam livre
expresso  sua alegria. Hermann chegou nesse
momento, a galope. Franz no se deixara contagiar pela situao e 
mantivera-se calmo, apesar da agitao. Fora ele quem telefonara 
a Hermann para que viesse. Preencheria o papel de pai da futura 
esposa, e assim  que estava bem. Parecia encantado.
-Entremos-disse ele-, preciso mesmo
de beber qualquer coisa. Tenho a boca seca. A emoo...
Serviram-se e Hermann brindou:
- Ergo o meu copo  sade do jovem casal.
- Obrigado, Hermann - agradeceu Wilhelm.
Ao pronunciar aquelas palavras, pensava em
tudo o que o ligava ao amigo. Em tudo o que,
cada vez mais, os ligaria um ao outro...
-Wilhelm, deste-nos bastante trabalho - disse Hermann. E 
sorria. Depois, voltou-se para a irm e comentou:-E a tua 
coleco de selos,, Amlia? Perdeste a aposta!
-Ests enganado, meu querido irmo. No
chegmos a apostar, porque tu no quiseste.
-De que esto a falar?
Wilhelm j se preparava para acorrer em defesa de Amlia, 
que desatou a rir.
-  uma coisa sem importncia - disse Hermann. - Havemos de te 
contar, no , Amlia?
-Claro-respondeu ela.
Wilhelm no podia conter-se mais tempo.
Que importava que Hermann e Franz os vissem?
Que importava que o mundo inteiro os visse?
E abraou Amlia.


3

Os olhos de Wilhelm estavam hmidos e via-se como estava 
comovido. A velha senhora, to graciosa, estendeu-lhe a mo, que 
ele levou aos lbios.
 - Nunca nos arrependemos - concluiu
Amlia von Pluttkorten. - Foi esta a nossa histria de amor. 
Espero que no se tenham aborrecido com as nossas recordaSes!
Laura, Mike Kringel e Renate garantiram que no.
 - No h nada que valha as experincias vividas - disse 
Mike Kringel.
Enquanto falava fitava apenas Renate, o que
j lhe acontecera vrias vezes durante a narrao,
especialmente nos momentos emocionantes.
Apreciava as mulheres e, naquele momento,
apreciava sobretudo Renate! Perguntava a si mesmo se ela era 
casada...
Renate, por seu lado, divertia-se bastante.
Reparara que o irmo de Laura se preparava para lhe dedicar o 
nmero do sedutor. A jovem tornara-se independente por fora das 
circunstancias. A me, a segunda das trs filhas dos Von

Pluttkorten, desposara Peter von Sorppen. Renate era ainda 
criana quando os seus pais morreram numa avalancha e, rfa, 
tinha sido criada pelos avs. Terminara os estudos e instalara-se 
em Munique, onde desejava tornar-se advogada para
exercer a mesma profisso do pai. Renate era filha nica.
Os avs tinham-se mostrado sempre muito
compreensivos para com ela. Como os maridos
das suas duas tias no se interessavam pela agricultura, os avs 
de Renate tinham arrendado a
herdade ao antigo caseiro, que vivia na propriedade, numa bela 
casa, e se entendia maravilhosamente com os patrSes. Era um homem 
delicado e at de convvio agradvel, mas Wilhelm von
Pluttkorten ainda no tinha perdido completamente a esperana de 
que alguma das suas netas casasse com um homem que pudesse 
assumir a administrao da herdade.
Ele queria apenas a felicidade da neta, apesar
de no entender muito bem a sua nsia de liberdade. Parecia-lhe 
que aquelas jovens independentes falhavam muitas coisas nas suas 
vidas, no querendo saber de heris, o que era pena. Wilhelm von 
Pluttkorten lamentava-o, ainda que
no o dissesse, por medo de parecer retrgado.
Amlia adaptava-se melhor do que ele aos novos costumes.
- Acho a vossa histria tocante - afirmou Mike. - Pergunto a 
mim mesmo se essa experincia nos poder ser til... Que te 
parece, Laura?
Laura aconchegou-se na poltrona. Os seus cabelos louros 
espalhavam-se no encosto. Estava
elegante e sedutora, de tez bronzeada, lindos
olhos azuis e boca bem desenhada. Um camiseiro ornamentado com 
rendas e uma saia branca realavam-lhe as formas. At o prprio 
irmo tinha conscincia de como ela era encantadora.
Laura sorriu.
 - Uma coisa me parece essencial  -  disse
ela. - Uma mulher deve manter-se feminina em
todas as circunstncias e combater com as suas prprias armas.
 - Voc parece-me bem armada para esse gnero de combate, 
Laura! - disse Wilhelm von Pluttkorten.
 - Obrigada. Talvez tente a minha sorte. Pode ser divertido 
representar uma mulher fatal.
Claro, vai ser apenas uma brincadeira, que no
comprometer ningum. J seria interessante
conseguir fazer Eberhardt sair do seu isolamento.
Mike aprovou, acenando a cabea.
 - No te esqueas de que vais desempenhar o papel principal 
no argumento que vamos arranjar. Vais ser o isco para aquele 
pavoroso misantropo, aquele misgino.
 - De acordo! H oito dias, a minha vida parecia-me montona 
e sem graa, eu sentia-me
triste e desiludida: acabara de romper com um
homem que amara muito e, agora, tenho a impresso de reviver! Com 
a vossa ajuda, hei-de fazer sair Eberhardt da sua toca.
 - Vai ter que ir l busc-lo  -  preveniu
Amlia von Pluttkorten.
Todos quiseram falar ao mesmo tempo. 
- E como?  sua toca?
- A Laura ter que ir a casa de Eberhardt?
 - Evidentemente. Uma isca s funciona se
for colocada num stio em que a "vtima" possa
v-la e alcan-la, ou seja, o mais perto possvel,

no  verdade?
- Como a senhora fez ao fazer-se passar por
- Se assim o quiserem... Mas teramos que
modernizar o plano...
 - De que maneira? - perguntaram Renate e Mike.
Cada um dizia sua coisa, lanava propostas
que eram rejeitadas. Laura mostrava-se pensativa
e alvitrou:
 - Talvez eu pudesse ir ter com ele, fazendo-me passar por 
uma representante de mquinas agrcolas...
 - No seria verosmil - disse Amlia von Pluttkorten.
De sbito, Mike Kringel exclamou:
 - Achei, Laura! A tua ideia das mquinas
agrcolas deu-me uma pista sobre o caminho a
seguir. Eis o meu plano...
Ouviram-no com ateno, e aperfeioaram o
plano, tendo em conta diferentes imponderveis.
 medida que os pormenores iam sendo ajustados, ficavam 
entusiastas e audaciosos.
Renate levantou-se de um salto e gritou:
- Genial, absolutamente genial! E foi preciso eu vir para o 
campo para participar numa coisa destas!
 - Desculpa l, minha querida -  cortou o av - , 
mas no  pelo motivo de termos uma floresta diante da 
porta que nos tornamos uns labregos!
Renate voltou a sentar-se.
 - No quis ofender ningum - apaziguou-o  - , mas 
isto diverte-me tanto! Uma conspirao de amor! 
Acabmos de montar uma verdadeira conspirao!
Laura interveio, um pouco incomodada:
 - Digamos antes que se trata de salvar um homem 
demasiado solitrio, no?
 - Mas se tudo acabasse em casamento, decerto 
no nos oporamos, no ? - disse Mike, dirigindo 
irm um olhar cmplice.
 - aos doze anos, estive apaixonada por 
ele... - lembrou Laura. - E se agora ele j no me interessasse?
 - Tem um corao de ouro - interveio o irmo - , 
s precisa de ser um pouco civilizado,  tudo.  um 
homem encantador, tanto quanto posso pronunciar-me 
sobre o assunto, pois entendo-me melhor a falar de 
mulheres! - E olhava novamente para Renate. Disse 
ainda: - Eberhardt faz papel de duro, mas  um ptimo 
rapaz. S h uma coisa que no suporta:  que lhe 
chamem Ebi. Pela parte que me toca, dar-lhe-ia a 
minha irm em casamento sem hesitar.
Laura desatou a rir.
- Ainda no chegmos a esse ponto.
Levantaram-se todos.
- Meu Deus - exclamou Laura - , bebi demais!
 - Para conspiraSes deste gnero, vale mais
no ter as ideias muito claras - disse Amlia
von Pluttkorten.
Renate acompanhou Laura e Mike Kringel
at ao carro. ao despedir-se, Mike pegou na
mo de Renate e conservou-a nas suas durante
algum tempo.

 - H uma frase de Humphrey Bogart em
Casablanca, que se podia aplicar agora: Creio
que isto  o comeo de uma grande amizade.
 - Ai sim? Ele diz isso? - perguntou Renate.  - No me 
lembrava.
 - Quando quiser, pode ir ver o filme a minha casa. Tenho 
muitas e boas cassetes de vdeo:  a minha paixo. Sim, venha um 
dia at l, telefone-me. Se eu no estiver a ajudar uma vaca no 
trabalho de parto, ou a arrancar um dente a
um leo, poderemos ver Casablanca juntos. De acordo?
 - Ora a est uma proposta que aceito de
bom grado - respondeu Renate.
Claro que Mike procurava um pretexto para
se encontrar a ss com ela. Mike Kringel era um
conquistador e um sedutor, mas Renate achava-o
demasiado convencido dos seus poderes, dos
quais tinha conscincia, e sentia vontade de lhe
dar uma lio. "Estamos a montar uma conspirao contra o pobre 
do Eberhardt von Bercken", dizia para consigo, "mas quem est 
morta por arranjar uma outra sou eu. Se o amigo Mike pensa que o 
seu camarada vai ser a nica vtima,
vai ter surpresas, pois eu vou tratar da sade a
este Don Juan. "
As duas amigas beijaram-se.
 -  agradvel telefonarmo-nos de vez em
quando, mas  muito melhor encontrarmo-nos - 
disse Laura.
 -  preciso conversarmos de tempos a tempos - respondeu 
Renate.
Ainda estava calor, mas o ouro do Outono
comeava a reinar sobre os campos. As primeiras
folhas mortas caam das rvores, como se fossem
mSedas brilhantes.
Eberhardt von Bercken soltou um pouco as
rdeas de Dannyboy e o cavalo irlands atravessou a clareira a 
galope. Chegaram junto de um arroio que Dannyboy transps de um 
salto. Cavaleiro e montada quase voavam, unidos como um s.
Dannyboy atingiu a outra margem com perfeio, mas Arco 
ladrou em ar de reprovao.
Adorava acompanhar o dono nos seus passeios a
cavalo, ocasio para se descontrair, mas nem por
isso era um saltador de obstculos! Reprovava
completamente as extravagncias do dono e, se
este tinha gosto em dar cambalhotas e cair por
terra, o problema era dele! Um co esperto como Arco no corria 
tais riscos, mas no podia abandonar o dono, e por isso tomou 
balano e saltou, mas continuou a latir para mostrar o seu 
descontentamento.
O dono tinha ocupaSes bem estranhas. Por
exemplo, atirava-lhe paus que ele devia levar-lhe  mo. Outras 
vezes, dava-lhe um objecto a cheirar, ia enterr-lo e Arco tinha 
de o encontrar. Outras ainda, devia ficar num dado local, sem se 
mexer, at que o dono tocava um apito que punha fim ao suplcio. 
Depois de ter passado por
estas provas, o dono fazia-lhe festas e elogiava-o.
Arco achava que os homens, por vezes, faziam
coisas bem estranhas... Era um co de caa e, no
entanto, quando ia levantar a caa nas herdades

vizinhas, o dono parecia descontente. Os homens...
Arco corria ao lado de Dannyboy, sempre a ladrar.
- Co bonito! - gritou-lhe Eberhardt.
O incitamento redobrou a energia do co
Chegaram  vista das casas e da cavalaria da
herdade de Bercken. No Vero, os visitantes invadiam o parque, 
mas no Inverno a vida era mais tranquila, por vezes at de mais.
Eberhardt queria convencer-se de que o cavalo e o co 
bastavam  sua felicidade. "No posso
queixar-me", dizia de si para si, "em breve ser a
festa de Aco de Graas pelas boas colheitas, os
animais esto esplndidos, Mike  um excelente
amigo. Para povoar as minhas noites de Inverno,
leio e vejo televiso. Na noite de Natal irei deitar-me depois da 
Missa do Galo, com um bom usque".
Desceu do cavalo e um criado levou Dannyboy. 
Carmencita relinchou o Arco lanou-se em perseguio 
do gato preto e branco, aventura da qual regressava 
sempre vencido... at  vez seguinte. Eberhardt entrou 
no trio e dirigiu-se ao escritrio, cujas janelas abriam 
sobre o parque. Via-se o imenso relvado, o ribeiro 
pontilhado de pequenas quedas de gua e os canteiros 
de crisantemos de todas as cores.
Os dois cisnes eram duas manchas brancas sobre 
todo aquele verde e ouro outonal.
O escritrio de Eberhardt mantinha-se igual havia 
vrias geraSes. No existia ali nada de moderno. Os 
mveis, imponentes, eram de madeira de carvalho, as 
paredes brancas. Um tapete persa. de cores esbatidas 
pelo tempo, poltronas em couro preto e um canap 
compunham o resto da decorao. O veludo vermelho e 
sombrio dos cortinados harmonizava-se com as 
lombadas douradas de belos livros encadernados, 
embora houvesse tambm inmeros livros de bolso que 
se acumulavam nas prateleiras. A sala cheirava a tabaco. 
Eberhardt gostava muito daquele lugar, que conservava 
sinais da passagem dos seus antecessores, tal como as 
igrejas parecem sempre impregnadas de preces.
Tirou o casaco e atirou-o para uma poltrona. Ficou 
em camisa branca e calas de montar. De ombros largos 
e ancas estreitas, parecia o heri de um filme do seste  
americano.
Passou os olhos pela correspondncia e deitou fora 
a maior parte, composta de publicidade intil.
Duas cartas chamaram a sua ateno e abriu-as com o auxlio de 
uma faca de caa que lhe servia para esse fim. A primeira vinha 
escrita a mquina; a outra,  mo, com uma caligrafia que lhe 
agradou.
Ambas respondiam a um anncio que tinha feito publicar. O 
feitor Meerkamp estava a envelhecer. Tencionava conserv-lo na 
propriedade, mas tinha necessidade de um homem mais jovem
para o ajudar. Por isso pusera o anncio, que fora publicado dois 
dias antes. Telefonara um pai de famlia com vocao literria, 
candidato que no interessava. Uma explorao agrcola no era um 
emprego honorfico!
Quanto  carta dactilografada, provinha de

um professor sem emprego, originrio do campo. Tinha trinta anos, 
era alemo e - como o
prprio destacava - muito vigoroso. A sua proposta parecia 
interessante e a carta, embora se assemelhasse a um manifesto 
ecologista, agradou a Eberhardt von Bercken. Ele pretendia um 
homem que percebesse bem de cavalos e fosse capaz de se ocupar da 
contabilidade e das formalidades administrativas.
 "Se isto continua como at aqui, vou ficar
ferrugento de estar tanto tempo sentado a mexer em papeis", 
pensava.
Arco tinha-se esgueirado para o escritrio e
deitara-se no seu canto favorito, debaixo da secretria de 
Eberhardt. Por vezes, tinha o azar de
receber um pontap, mas gostava daquela atmosfera de caverna.
A letra da segunda carta era rebuscada, quase
sofisticada. "Deixemo-nos de preconceitos", admSestou-se 
Eberhardt, e comeou a l-la. A candidatura correspondia 
exactamente quilo quepretendia. Tinha de encontrar aquela 
criatura. Se a descrio fosse exacta, Eberhardt encontrara o
que procurava. Tencionava aproveitar a calma do
Inverno para pr o interessado ao corrente do seu
novo trabalho.
No entanto, sem saber porqu, sentia-se um
pouco inquieto. A carta estava assinada R. von
Sorppen", no muito legvel. Eberhardt hesitava
entre Ron" ou Ren", um nome na moda. Estudos feitos em Munique e 
Berlim, tinha trabalhado numa coudelaria berlinense, e fazia 
estgio em Pluttkorten. Na verdade, a resposta deveria
ser dirigida para a herdade de Pluttkorten, ou o
contacto podia ser feito por intermdio da senhora Von 
Pluttkorten.
Tudo parecia perfeito, mas Eberhardt queria
encaixar as peas. Von Sorppen... Tinha a impresso de ter j 
ouvido aquele apelido em qualquer parte.
De bom grado Eberhardt teria discutido o assunto com o seu 
amigo Mike Kringel, mas este parecia ter-se tornado um pouco 
distante por ele se ter recusado a comparecer  festa dos 
Pluttkorten, atitude que era inconcebvel para Eberhardt, pois 
estava em contradio com a solidariedade masculina que esperava 
do seu amigo. Decerto que Mike pretendia fazer com que ele se 
encontrasse com a irm, Laura. Tinha esperanas de que ela se 
fosse embora depressa. Eberhardt
no precisava de nada, nem de ningum. E, de
qualquer modo, no queria na herdade de Bercken uma criatura 
quezilenta, complicada e exigente! J fizera a experincia uma 
vez na vida eno estava interessado em voltar a passar pelo
mesmo.
 - Para que servem as mulheres, pergunto a
mim mesmo? - disse em voz alta. - No precisamos delas aqui, no 
, Arco?
O co, ao ouvir o seu nome, levantou-se, julgando que o dono 
ia atirar-lhe com uma rolha de garrafa, como por vezes acontecia. 
Arco foi buscar uma rolha e colocou-a aos ps do dono, que, com 
um pontap, a fez rolar at  extremidade
da sala. Arco precipitou-se sobre a rolha, latindo
de satisfao. Apanhou-a nos dentes e trouxe-a
de volta, abanando a cauda.
S que, entretanto, Eberhardt j no dava
ateno a Arco. Estava a pensar. O mais simples

seria telefonar aos Pluttkorten, mas no queria
faz-lo. Iria lembrar aquele embaraoso convite,
o que lhe convinha evitar. Mas, de qualquer maneira, queria 
conhecer aquele candidato.
E se telefonasse a Mike? Correria o risco de
ser atendido por Laura, e desta desconfiava. Como todas as 
mulheres, tentaria enrol-lo, convid-lo para jantar...
 - No vamos meter-nos nisso, no  verdade, Arco?
O co,  espera de brincadeira, aproximou-se
do dono com a rolha na boca e, desta vez, Eber hardt entrou no 
jogo de boa vontade. Finalmente, decidiu escrever uma carta para 
convocar o senhor R. von Sorppen a apresentar-se em sua
casa na quinta-feira seguinte, depois do almoo.
 noite, armou-se de coragem para telefonar
a Mike, que o atendeu amavelmente.
 - Espero que encontres um colaborador capaz, para Meerkamp 
e para ti.
 - A tua irm, est boa? - perguntou Eberhardt com esforo, 
apenas por cortesia, que Mike apreciaria.
 - Oh... Vou lev-la amanh ao aeroporto - 
respondeu Mike.  - Tem que partir mais cedo
do que estava previsto. A visita dela aos Plutt-
korten foi adiada. Hoje no estou livre, nem
amanh.Que te parece uma partida de cartas depois de amanh,com o 
Meerkamp?
 - Bem, sabes, agora no tenho cabea para
pensar nisso...
- Compreendo, Eberhardt.
 - Olha l, tens ido a Pluttkorten ultimamente? Viste por l 
um homem novo?
 - Sabes, desde que o Meyer  o veterinrio
que lhes assiste os animais raramente l vou; s
quando h uma emergncia. No conheo l ningum; talvez o tenha 
visto, no me lembro. Vemos tantas caras novas em casa dos 
Pluttkorten que  difcil recordarmo-nos de todas.
- At breve. Depois digo alguma coisa.
"Uf! O perigo afasta-se", pensou Eberhardt;
"a menina Kringel vai-se embora. Esplndido!"
Ficou to aliviado que chegou a pensar mandar-lhe uma orqudea 
das suas estufas, acompanhada de uma palavrinha, do gnero de: 
Lamento que no tenhamos tido a oportunidade de
nos encontrarmos desta vez... " Mas desistiu,
pensando:
"Se damos o dedo mindinho a uma mulher,
ela h-de querer o brao e ainda mais. No, meu
velho, deixa-te ficar assim... S um imbecil se
deixaria apanhar desta maneira."
No dia seguinte recebeu uma outra candidatura, de um 
cineasta que pretendia filmar um documentrio sobre a vida na 
herdade dum grande proprietrio rural.
Tratar-se-ia de uma obra muito objectiva, escrevia ele.
Apareceu ainda um campons j no muito
novo que tinha falido e propunha os seus servios. Eberhardt 
continuava a dar a preferncia ao jovem Von Sorppen.
Quinta-feira, 14.55 horas... Eberhardt von
Bercken acabava de examinar uma gua nova
que estava com clicas. Hesitava em chamar Mike. Talvez fosse 
prefervel esperar um pouco.

 - Eu fico a tomar conta dela - ofereceu-se Meerkamp.
Saram ambos da cavalaria.
 - O candidato deve chegar as quinze horas;
espero que seja pontual. Gostava que o visse,
Meerkamp, para me dar a sua opinio.
Um carro vermelho, desportivo, entrava no
ptio e, depois de fazer uma curva, parou em
frente da escadaria.
-  ele - disse Meerkamp.
Uma criatura alta e magra desceu do carro.
Trazia umas calas de veludo e um casaco de
tweed de ombros largos... Bateu com a porta do
automvel. Eberhardt aproximou-se a largos passos.
Quando o candidato se voltou, Eberhardt teve um choque. 
Tentou dominar-se e sorrir. Uma mulher! Era uma mulher!
- Deseja alguma coisa?
Tinha falado no tom mais amvel possvel.
 certo que a jovem era muito bonita e no vinha vestida 
espalhafatosamente, como muitas faziam.
Tinha os cabelos louros, puxados para trs,
no usava maquilhagem e estava bem vestida.
Parecia-se com Laura Kringel, mas para melhor.
Laura devia continuar a ser a garota engraada
que sempre fora, com os cabelos desalinhados,
um narizinho arrebitado, sardenta...
A mulher que estava na sua frente, pelo contrrio, era uma 
verdadeira beleza. Eberhardt sentia-se perturbado, enquanto a 
jovem o fitava com ar srio, de faces ligeiramente ruborizadas.
 - No seria melhor entrarmos? - perguntou ela.
A voz era doce mas firme. Alguma vez poderia assumir as 
insuportveis estridncias da voz da sua ex-mulher?
- Com certeza, faa o favor de entrar.
Laura, longe de estar calma, disse para consigo que tudo 
estava a correr bem. Fora convidada para entrar, o que j 
constitua uma primeira vitria.
Ele abriu-lhe a porta e a jovem entrou na casa. Uma 
trana bem apertada dava ao seu penteado um ar um 
pouco austero. Eberhardt lanou um olhar na direco 
do velho Meerkamp, que, ainda no ptio, observava a 
cena, abismado.
Laura e ele instalaram-se diante um do outro, no 
escritrio. Eberhardt ofereceu-lhe um cigarro
- Fuma?
 - No, obrigada. Permita-me que me apresente: o 
meu nome  Renate von Sorppen.
- Em que posso ser-lhe til?
 - Estou interessada no cargo para o qual publicou 
um anncio. Creio que leu a minha carta de resposta, 
senhor Von Bercken... Se quiser, poderei apresentar-lhe 
as minhas referncias. Tencionava traz-las, mas preferi 
no perder tempo, pois suponho que deve ter recebido 
numerosas candidaturas, mas devo fazer-lhe notar que 
me sinto qualificada para este trabalho.
Uf! Pelo menos conseguira fazer o seu discurso". 
Eberhardt ainda se encontrava perplexo e ela queria 
aproveitar o efeito da surpresa. Laura fitava o homem 
sentado  sua frente com o ar mais neutro possvel, com 

circunspeco. O sol entrava pelas janelas e um raio de 
luz dourada, incidindo sobre os seus cabelos louros, 
dava-lhes reflexos acobreados.
Eberhardt observava-a, pensativo, sem saber se 
devia rir-se ou encolerizar-se. Na verdade, sentia-se 
irritado. Mas ela era to bonita, sentada 
naquela poltrona, com os cabelos brilhando como um usque velho, 
os olhos to azuis, a boca
parecida com a de Greta Garbo... O conjunto do
seu aspecto nada tinha de ousado nem de agressivo, era at 
bastante feminino. Admirava a coragem da jovem, pois era preciso 
ter coragem para se apresentar diante dele, como se fosse a coisa 
mais natural do mundo. Uma mulher a pretender tornar-se assessora 
de um proprietrio rural... E da herdade de Bercken, ainda por 
cima!
Laura estendeu a mo para Arco, que a adoptara e se 
aproximou sem se fazer rogado dando 
cauda e  espera de uma carcia. At lhe lambeu a
mo, o que era sinal da mais elevada considerao. Ela no 
pareceu assustada e deu-lhe uma palmadinha amigvel.
 - No duvido das suas qualificaSes, mas
para este lugar preciso de um homem vigoroso.
Eberhardt esforava-se por manter um tom firme.
- Sou mais robusta do que pareo...
Ele franziu as sobrancelhas.
 - O meu assessor no deve desmaiar quando
uma gua tiver dificuldades no parto...
 - No desmaio. Tenho um cavalo em Berlim, ou antes, tinha 
um.
Pensou, com tristeza, em Luxor, o seu cavalo. No fora capaz 
de o vender e tinha-o levado, como hspede, para casa de uns 
camponeses, em Lbars, na esperana de poder um dia ir busc-lo.
De momento, tinha de estar com ateno, para no se trair 
fornecendo demasiados pormenores sobre a sua pessoa. Agora, era 
apenas Renate von Sorppen. No comeo, pensara em escolher
um nome qualquer, mas a senhora Von Pluttkorten dissuadira-a, 
pois seria prefervel manter-se mais perto da verdade, o que 
facilitaria responder a perguntas sem ter que recorrer  
imaginao.
Perguntara mesmo se Laura no poderia fazer-se passar por 
homem.
 - E um procedimento corrente no teatro - argumentara.  - 
Shakespeare e Goldoni utilizaram-no muitas vezes nas suas 
comdias...
Seria possvel, talvez, mas Laura receara deixar-se trair 
pela voz, o mais difcil de disfarar, e, assim, resolvera 
apresentar-se como mulher.
Dirigiu-se a Eberhardt:
 - Pea-me o que quiser e constatar pessoalmente que 
conheo o meu ofcio.
 -  intil, minha senhora, no tenho intenSes de contratar 
uma mulher para este cargo.
 - Vou ento fazer-lhe uma pergunta mais directa: no ser o 
senhor um pouco misgino?
- No! Que ideia!
Ela curvou-se um pouco e fitou-o.
 - Nesse caso, admita-me  experincia, por

favor. No arrisca grande coisa, a menos que
exista um candidato melhor do que eu.
A perspectiva de ver todos os dias esta jovem
to bela e decidida pareceu a Eberhardt, de repente, tentadora, 
mas hesitou um pouco.
 - Admiti-la  experincia?... Talvez durante
um ms? Est bem, podemos tentar, mas primeiro teremos que 
discutir as condiSes.
- Estou disposta a aceitar todas as suas condiSes. E 
chame-me simplesmente Ren, como o fazem os meus amigos. O meu 
nome  Renate.
 - Na carta, de facto, s mencionava a letra erre.
Eberhardt sorriu pela segunda vez. Parecia
menos triste, mais descontrado.
Ren", por seu lado, achava-o estupendo e
gostaria de ver os seus olhos mais felizes. Eberhardt props-lhe:
 - Vou lev-la a visitar a herdade. Quer fazer
um brinde antes, para festejarmos o nosso acordo? Toma um licor?
 - Se no se importa, prefiro um usque, sem
gelo nem gua, puro.
- Muito bem,  tambm assim que o prefiro.
Ren" sorriu, pois Mike tinha-a posto ao corrente dos gostos 
de Eberhardt. Sabia, assim, o
que devia fazer e o que devia evitar para agradar
ao dono da herdade de Bercken.
Ele acompanhou-a pela propriedade, da qual
parecia orgulhar-se, e com razo. Apresentou-lhe
Meerkamp, que perguntou:
 - Von Sorppen? Por acaso  parente dos
Pluttkorten?
- Sou neta - disse Ren".
- Por que razo no me disse?
Eberhardt pareceu surpreso e ela explicou:
 - No queria vir recomendada por ningum. Pretendo vencer 
sozinha.
Tinha corado um pouco, mas, no conjunto,
no se sara nada mal. Eberhardt levou-a a fazer a volta do 
proprietrio e via-se que tinha vaidade
no que conseguira construir e que amava as suas
terras. Mostrou-lhe os cavalos, aos quais deram
torrSes de acar.
 - Esta  a Carmencita, a minha preferida - 
disse Eberhardt.
A rapariga gostou da maneira como ele dissera "a minha 
preferida" e interrogou-se se algum dia ele lhe falaria com uma 
voz assim to meiga.
Comportava-se como se a achasse desprovida de
qualquer encanto, mas, enfim, era preciso deixar
passar o tempo.
Do fundo do prado avanou um cavalo preto, a trote. Laura, 
que ainda segurava um torro de acar, estendeu-lho. Dannyboy 
fitou-a e agitou a cabea. Eberhardt observava a cena. Dannyboy 
era um cavalo arisco que no deixava aproximar os estranhos.
 - Cuidado  -  avisou Eberhardt  -   traiSeiro!

Mas Dannyboy avanou e recolheu delicadamente o acar com a 
boca.
A jovem pousou a mo sobre a cabea do cavalo, que 
correspondeu, encantado. Parecia perceber de cavalos.
" descontrada", pensou Eberhardt. "Uma
rapariga moderna que sabe manter a cabea no
lugar. No se parece com a Gabrielle;  directa,
franca. Creio que  de confiana."
Ao despedirem-se, ele apertou-lhe a mo
com tanta fora que quase a fez dar um grito,
mas conseguiu sorrir.
 - At breve! Quando pode comear a trabalhar?
 - Amanh de manh, se lhe der jeito. Quanto mais depressa 
acabar o tempo da experincia, melhor.
- Perfeito.
Ela fez um aceno com a cabea e entrou no
carro. Claro que Eberhardt nem suspeitava de
que gnero de experincia se tratava.
Laura arrancou. Ele disse adeus com a mo e
voltou para o escritrio. Sentia-se confundido
e perguntava a si prprio o que estava a acontecer-lhe...
Contratar uma mulher! Como tinha sido possvel? Absolutamente 
contrrio aos seus princpios. Meerkamp fizera cara de caso 
quando lhe apresentara a jovem. Mike Kringel, quando soubesse da 
novidade, ia rir-se dele, e Eberhardt
sentia-se inquieto. As mulheres s traziam complicaSes e 
desordem, era sabido, e os seus dissabores conjugais s tinham 
confirmdo esta ideia.
Naquela poca sentira cimes do seu rival, e a
sua altivez, a sua resistncia fsica e moral tinham
sofrido com isso. Sentira-se como que esvaziado
da sua substncia e tornara-se uma sombra.
E agora sentia-se de novo perturbado, embora fosse uma 
perturbao diferente. Eberhardt deixou-se cair numa poltrona e 
estendeu as pernas.
"Ren... que nome estranho. Mas no  feio e
ela  uma bela mulher!"
Embora parecesse, por vezes, que o receava.
Mas porqu? Normalmente era ele que tinha medo das mulheres. 
Excepto daquela. Apesar de tudo, era ele o patro. Apoiou a 
cabea no encosto da poltrona e ps-se a cantarolar a sua melodia 
favorita.
- Strangers in the night...
E cantava bem alto, ele, Eberhardt von Bercken! Coisa que h 
muitos anos no lhe acontecia. Apeteceu-lhe sair, no conseguia 
estar quieto. Foi ao encontro de Meerkamp.
 - Ento, Meerkamp, o que achou da nossa
nova recruta?
- Tem um ar eficiente.
- S achou isso?
- O que mais queria?
 - Deixe-se de histrias! Pela sua cara, estou
a ver que ficou com alguma coisa atravessada na garganta...
- No, de modo nenhum...
Meerkamp reflectira sobre o assunto: j tinha
encontrado a neta dos Pluttkorten e sabia que
no era loira, mas, s vezes, as mulheres pintam
os cabelos. Havia, contudo, outro pormenor que
no encaixava: a jovem Pluttkorten no era to

alta e, que soubesse, eles no tinham mais nenhuma neta...
O patro estava to bem-disposto que no lhe
contou as suas suspeitas. Era solteiro, com certeza no percebia 
nada de mulheres! Meerkamp decidira, portanto, calar-se de 
momento, mas ficar atento.
No dia seguinte, Ren" comeou a trabalhar.
Atirou-se  contabilidade um pouco anrquica da explorao 
agrcola e deu-lhe uma certa ordem. A nova empregada parecia 
galvanizar todo o pessoal. A boa senhora Paulsen, que h longos 
anos governava a casa e encarara a chegada da jovem
com m vontade, passados alguns dias j lhe pedia toda a espcie 
de conselhos, e at a encarregou de meter na ordem as criadas de 
quarto, que se tinham tornado muito preguiosas.
Para tornar plausvel a sua recusa ao convite
dos Pluttkorten, Eberhardt foi forado a ausentar-se, o que Laura 
aproveitou para mandar limpar a casa de cima a baixo, 
participando tambm na operao. A senhora Paulsen foi a nica 
que no fez nada, desculpando-se com dores de barriga. Laura, 
para provoc-la, inquiriu:
- Ter foras para segurar este pano do p?
A senhora Paulsen reflectiu no problema e
respondeu com pouca convico:
 - De qualquer maneira, no vai servir para
nada. O p torna sempre a aparecer e o patro
no se rala com isso. A senhora  um pouco 
moda antiga, no ?
- Talvez. No gosto de p.
O rs-do-cho ficou resplandecente. Laura foi
colher flores e fez ramos que disps por todas as
divisSes. Colheu a mais bela orqudea da estufa,
branca pintalgada, e colocou-a numa jarra de
cristal, em cima da secretria de Eberhardt. Ficou
a contemplar a sua obra com satisfao. Eberhardt von Bercken ia 
ficar admirado.
E, de facto, ficou admirado. Cheirou o ar:
- Cheira a cera.
Na sua boca, isto no era um cumprimento.
Corrigiu os lugares de livros e objectos decorativos que, nas 
limpezas, tinham sido deslocados.
Mas as coisas complicaram-se quando viu a
jarra em cima da secretria. Cheia de esperana,
Laura aguardava a sua reaco, pensando que iria
ficar extasiado e felicit-la pela iniciativa, mas
no sucedeu nada disso. Eberhardt inspirou profundamente e acabou 
por proferir:
 - Como  que esta orqudea veio parar  minha secretria?
A pergunta pareceu estpida a Laura e respondeu, com 
irritao:
- No veio pelo seu p...
- Quem a trouxe para aqui?
- Fui eu.
O rosto de Eberhardt enrubesceu de repente e gritou:
 - Probo que mexam nas minhas orqudeas!
O jardineiro s recebe ordens de mim! S de
mim! Entendeu bem? Que desordem!
Laura olhava-o sem compreender. No parecia o homem 
encantador e afvel que a recebera e

achou-o injusto e grosseiro. Podia sentir as lgrimas, mas ele 
no devia v-la chorar. Tentou dominar-se. Atirou a cabea para 
trs, olhou-o de frente e disse:
 - No voltar a acontecer, pode ficar descansado. Estvamos 
num perodo de experincia, mas lamento dizer que no estou 
satisfeita.
Deu meia volta e subiu para os seus aposentos. Deixara-se 
levar pela clera, mas estava furiosa.
Juntou as suas coisas, que atirou de qualquer
maneira para dentro da mala. Na sua fria, atirava com as portas, 
para descarregar o mau gnio.
"No passas de um execrvel palerma, de
um horrvel pretensioso, de uma personagem
odiosa! "
Cada palavra que pronunciava era sublinhada
pelo bater de uma porta de armrio ou de uma
gaveta da cmoda.
Laura estava fora de si. E tinha-se esfalfado
durante dois dias inteiros para lhe dar prazer!
Nem sequer lhe tinha agradecido, atirando-lhe
apenas crticas. Ah! Aquele homem! Aquele homem... Amava-o! Isso 
punha-a ainda mais furiosa.
"O que est a acontecer-me?  ridculo...
No posso continuar a representar esta comdia.
De qualquer maneira, no tenho mais nada a
perder. Ele nunca h-de perdoar-me esta artimanha. Ser melhor 
partir, para bem longe. Vou voltar para Berlim, ou para Nova 
Iorque, no importa! "
Atirou-se para cima da cama e deu largas ao
seu desgosto. O plano que tinham combinado
talvez no fosse mau, mas no levara em conta
os seus prprios sentimentos. Laura sentia-se fraca e vulnervel. 
Deixou correr as lgrimas.
A lembrana dos anos perdidos com Frank, em
Berlim, o choque do rompimento e agora o mau
humor de Eberhardt, eram de mais!
Levantou-se, foi  casa de banho e passou
gua fria pelo rosto. Penteou-se, com gestos
enrgicos, enfiou o fato de cabedal, pegou na
mala e saiu do quarto.
Desceu lentamente a escada. A mala pesava e
sentia-se triste. Eberhardt esperava-a no vestbulo. Laura 
pretendia passar sem sequer o olhar,
mas Eberhardt apoderou-se da mala e p-la no
cho. Segurou num brao de Laura, firmemente,
e ela nem tentou libertar-se.
Quando estava ainda casado e apaixonado pela mulher, todos 
os dias Eberhardt punha uma orqudea branca na mesa do 
pequeno-almoo. No seu esprito, a orqudea ficara associada a 
Gabrielle e  sua traio, o que Ren no podia saber.
"Ela apenas quisera ser gentil.
E eu no fiz mais do que agredi-la", pensou
ele. Portei-me como um safado."
Gostaria de explicar-lhe a razo do seu comportamento, mas 
ela no queria ouvi-lo. Pela primeira vez, via-a com os cabelos 
soltos. Que bonita era! Obrigou-a a voltar-se e a
olhar para ele:
 - Ren! Estou desolado. No queria feri-la.

Faamos as pazes.  - Ela tinha chorado! Trazia
os olhos vermelhos e fitou-o com ar infeliz.
Eberhardt no resistiu e debruou-se sobre
ela, beijando-a na testa, nas faces e por todo o
rosto, at que os seus lbios se encontraram.
Laura permaneceu inerte, parecendo desesperada.
 - No, no - lamentou-se - , est tudo estragado, no h 
mais nada a fazer.
Ele soltou-a, pensando:
"No  possvel perceber as mulheres!"
Laura pegou novamente na mala e deixou a casa.
Eberhardt abriu-lhe a porta do carro. A jovem sentou-se, ps o 
motor a trabalhar e arrancou como uma bala. Eberhardt ficou 
parado, de p, olhando, sem ver, a nuvem de p que a viatura 
levantava. Como se tivesse apanhado uma
pancada na cabea, entrou em casa, de olhar no
cho. No escritrio, atirou-se para uma poltrona
e contemplou a orqudea na sua jarra. A beleza
da flor parecia incomod-lo. "Meu Deus, como
sou estpido! A vida d-me uma segunda oportunidade e eu deixo-a 
fugir!"
Esvaziou vrias vezes o copo de usque antes
de adormecer no canap do escritrio. Arco deitara-se-lhe aos 
ps. Eberhardt passou uma noite agitada.
Levantou-se ao alvorecer. No entanto, nem o
facto de se ocupar do tratamento dos cavalos lhe
devolveu a serenidade.
 - O que aconteceu?  -  perguntou Meerkamp.
 - Nada! O que havia de acontecer? A nossa
nova assistente foi-se embora ontem  noite, atirando com a 
porta, foi tudo. Suponho que no
me achou suficientemente fino e distinto para o seu gosto...
Meerkamp observou o patro, que parecia
bastante nervoso. No queria dar-lhe a conhecer
as suas dvidas quanto  verdadeira identidade da
Jovem, mas comentou:
- Talvez pudesse telefonar aos Pluttkorten.
- No  m ideia...
O moral de Eberhardt comeava a recompor-se. No queria 
deixar-se abater.
Em primeiro lugar, colheu todas as orqudeas
brancas e fez com elas um ramo que envolveu
em papel de seda. Depois, foi procurar a senhora
Paulsen, que bebia o seu caf.
 - Aqui esto vinte marcos. O seu filho poderia ir na 
bicicleta levar estas flores a Pluttkorten? Espere, vou juntar um 
carto s flores.
A senhora Paulsen era entendida em coisas de
amor e sorriu-lhe, o que o fez corar.
Eberhardt esperou pelas onze horas com impacincia, pois 
pareceu-lhe inconveniente telefonar mais cedo.
Respondeu-lhe uma voz de mulher:
- Fala de Pluttkorten.
 - Fala Bercken. Desculpe, minha senhora,
mas estou preocupado com a vossa neta, a menina Von Sorppen. Saiu 
daqui ontem num estado... digamos, de grande agitao, e queria 
saber se j est melhor.
 -  muito amvel da sua parte, senhor Von

Bercken. Na verdade, ela pareceu-me muito nervosa quando aqui 
chegou. De qualquer modo, muito obrigada pelas flores 
maravilhosas que mandou entregar. So soberbas e a minha neta
encarregou-me de lhe agradecer.
 - Seria possvel... hum... eu poderia falar
com a menina Von Sorppen, por favor?
 - Lamento, mas ela saiu para umas voltas na
cidade. Falou-me numa agncia de viagens,
creio, mas no sei se estou a fazer confuso, no
tenho bem a certeza.
Amlia von Pluttkorten sabia o efeito que tal
notcia provocaria em Eberhardt.
No entanto, no mentia: Laura Kringel tinha
recorrido a ela, na vspera  noite,  beira de
uma crise nervosa. Chegara a Engenstedt e encontrara o irmo, 
Mike, acompanhado por uma das suas amigas. Laura e a senhora Von 
Pluttkorten tinham conversado longamente e Amlia
aconselhara-a a no perder as esperanas.
 - Precisamos apenas de introduzir algumas
modificaSes no nosso plano. A menos que j
no esteja interessada no Eberhardt, minha filha,
 - Creio que nunca estive to interessada nele. - Amlia von 
Pluttkorten sorrira. Laura parecia preocupada. - Esta histria  
absurda e se ele souber a verdade ficar vexado.  melhor que eu 
me v embora... Obrigada por tudo, querida
senhora.


4

Quanto  verdadeira Renate von Sorppen, do que lhe contara a av, 
tinha especialmente dado ateno ao facto de Mike Kringel ter 
recebido uma amiga em casa. Aquele sedutor incorrigvel precisava 
de uma boa lio e Renate estava decidida a tratar disso.
Mike Kringel dirigia-se para Engenstedt no carro de 
Laura. O dele no pegara e precisava de passar pela 
garagem. Tambm queria ir  agncia de viagens para 
organizar umas pequenas frias nas Canrias. A 
empregada perguntou-lhe, com familiaridade:

 - Ento, caro doutor, vais gozar alguns dias ao sol 
para escapar ao cinzento do Outono?
- Exactamente!
Mike tivera uma breve aventura com ela.
- S para uma pessoa?
- Evidentemente!
 - Que dirias  ideia de voltar a Maspalomas? Sol 
garantido e um festival de biquinis...
 - Estou de acordo, mas prefiro um apartamento.
Ela premiu as teclas do computador.
Eberhardt percorria a mesma rua, em grande 
velocidade, e viu o carro vermelho com matrcula de 
Berlim estacionado em frente da agncia.
Queria absolutamente falar com Ren.
No havia lugar para estacionar e perdeu
tempo  procura de um espao. Quando chegou
 porta da agncia, o carro tinha desaparecido.

Entrou. Ren no estava l. Dirigiu-se  empregada:
 - Desculpe, pareceu-me ver entrar aqui uma
amiga minha. Deve ter sado mesmo agora.
- Pode descrever-ma?
- Oh...  uma jovem loura, muito bonita.
 - No, lamento mas no esteve aqui. S
atendi Mike Kringel, o veterinrio. Creio que o conhece.
 - Sim, somos amigos. Por acaso no disse
para onde ia? Preciso de falar com ele.
 - Mencionou que precisava de ir  garagem.
O carro dele, uma vez mais, no quis pegar e pediu o carro 
emprestado  irm.  caso para perguntar como  que os mecnicos 
arranjam...
Eberhardt pediu desculpa e saiu, perguntando
a si mesmo por que motivo Mike pedira emprestado o carro a uma 
tal Renate von Sorppen.
Receava que o amigo tivesse tentado seduzir
a jovem. Quem sabe se a teria conhecido na poca em que ela 
trabalhava em casa do av, o senhor Pluttkorten? Talvez tivesse 
sido Mike quem a aconselhara a responder ao anncio? E agora Mike 
andava com o carro de Ren. Eberhardt
concluiu que eles j seriam ntimos. Ainda havia
outra possibilidade. Mike, influenciado pelos
elogios que Eberhardt fizera  nova contratada,
aproveitara-se da sua partida precipitada da herdade para tentar 
a sua sorte. Mas, neste caso, no
haveria nenhum motivo para guiar o seu carro...
Ou ento... Veio ao seu esprito uma ideia
maluca. Eberhardt deteve-se e fechou os olhos.
 - No se sente bem, senhor Bercken? - 
perguntou-lhe a mulher do droguista, vendo-o
esttico, de p, no meio da rua.
 - No se preocupe, senhora Schmidt, est
tudo bem. Acho que tive uma leve tontura, mas J passou.
"Nunca se est tranquilo numa cidade pequena como 
Engenstedt, onde toda a gente se conhece. Com certeza j se sabe 
do meu azar com a nova colaboradora. E logo ela foi relacionar-se 
com o Mike Kringel, aquele tratante, aquele traidor... Mas j 
estava a esquecer a terceira possibilidade..."
Laura, a irm de Mike, morava em Berlim.
Esta coincidncia deveria ter-lhe ocorrido logo.
Aquela mulher transtornara-o; se assim no fosse, no teria cado 
na armadilha. Tudo aquilo era
culpa de Mike, um falso irmo, um traidor. Ela
no era melhor. Alis, a sua competncia em matria agrcola era 
medocre, s parecia entender
de cavalos. Mas, em contrapartida, desembaraava-se bem na 
contabilidade. A irm de Mike tinha estudado economia. Eberhardt 
ignorava qual era a sua profisso, mas tinha ideia de que era 
conselheira fiscal. Deviam ter-se divertido bastante  sua custa, 
aqueles dois!
"Ren... O que estou eu a dizer? Laura de certo no se privou 
de troar do velho misgino solitrio que vivia na herdade de 
Bercken. E a senhora Pluttkorten? Com certeza tinha conhecimento 
daquela maquinao, ou teria reagido
doutra maneira ao telefone."
Como conseguira Mike convencer a pobre

senhora Von Pluttkorten a participar naquela histria?
Eberhardt reconstituiu os elementos do quebra-cabeas, mas 
foi Meerkamp quem lhe deu a soluo:
 - Pois ! Sempre achei que aquela menina
no podia ser a neta dos Pluttkorten e pensei que
se tratasse da irm do doutor Kringel.
Eberhardt estava louco de fria, mas soube
conter-se, e perguntou calmamente ao velho:
- Meerkamp, porque no me falou nisso
O velho tossiu vrias vezes. A situao era delicada e 
conhecia bem o patro: aquela calma
aparente e o tom conciliador que adoptara apenas
disfaravam a clera de que estava possudo. Tinha que ser 
prudente.
 -  que... Ela era encantadora aquela menina, e mais do que 
isso! Apesar de estar velho, concordo, ainda sei admirar uma 
mulher bonita.
Eberhardt no pde deixar de sorrir.
 - De facto, ela  encantadora, Meerkamp.
No se aflija, eu tenho um plano. De qualquer
modo, seja o que for que acontea, no conte nada disto a 
ningum, entendeu bem? Se se calou at agora, pode aguentar ainda 
um pouco mais.
- No abrirei a boca a tal respeito.
Meerkamp sentiu-se aliviado. Evitara o pior e prometeria fosse o 
que fosse, desde que Eberhardt no guardasse ressentimento contra 
ele.
Eberhardt s pensava em Laura. Parecia-lhe
v-la a descer as escadas, com a mala demasiado
pesada e os olhos avermelhados pelas lgrimas.
Ela tinha chorado! No era, portanto, to cnica
como pretendia mostrar-se. Eberhardt no gostava das mulheres 
histricas, mas a ideia de ter
feito Laura chorar no lhe desagradava de todo.
Quem poderia ter adivinhado que a trana
bem apertada escondesse uma cabeleira to opulenta? Os seus 
cabelos eram da cor do trigo.
Ele recordava, sobretudo, o gosto dos seus lbios.
Esquecera a sua reserva habitual, mas o beijo
valera a pena, ainda que no tivesse sido correspondido. Julgava, 
porm, que ela no era to fria
e distante como aparentava. Estava tentado a
acreditar que Mike era o nico responsvel por
aquele jogo de escondidas e que, de facto, Laura
e ele eram as vtimas
Mas Laura, apesar de tudo, merecia uma lio
e Mike no perdia nada por esperar... Se pensava
que s ele era capaz de semelhantes brincadeiras,
estava enganado!
Eberhardt foi outra vez procurar a senhora
Paulsen, para lhe dizer que queria que o filho
voltasse a Pluttkorten para entregar uma carta.
A senhora Paulsen sorriu, com ar entendido.
 - Parece que o senhor baro passou  ofensiva...
Eberhardt ps-se a rir. Aquela senhora Paulsen no era capaz de 
deixar de se meter no que no lhe dizia respeito, mas tinha razo 
- ele reealmente passara a controlar a situao.

A carta que acabava de redigir era uma verdadeira 
obra-prima. Dizia:
"Cara menina Von Sorppen, cara Ren: em
primeiro lugar, queira aceitar as minhas desculpas pelo meu 
comportamento inqualificvel. Talvez possa compreender melhor a 
minha reaco se souber que aquelas orqudeas, para mim, esto 
ligadas a dolorosas recordaSes. Graas  sua ajuda involuntria, 
consegui libertar-me disso. Ouso exprimir a esperana de que 
reconsidera a sua deciso e de que voltarei a v-la em Bercken. O 
Arco, o Dannyboy e a Carmencita associam-se a este meu pedido. 
Fique sabendo que o seu auxlio me  indispensvel. Conseguiu pr 
a minha contabilidade em ordem e dar um aspecto novo  casa. 
Ficarei
muito feliz se voltar a tomar posse dos seus aposentos. Espero 
por si. Igualmente lhe transmito os cumprimentos
da senhora Paulsen e de Fritz Meerkamp.

O seu muito dedicado Eberhardt von Bercken. "

Arco foi o primeiro a dar pela chegada. Como
de costume, andava atrs do gato preto e branco,
que o arranhara e fora refugiar-se nos ramos da
nogueira do ptio. Arco, pacientemente, esperava
que descesse. O co rosnava e o gato bufava.
O carro vermelho chegou e Arco lanou-se para
ele, latindo. Laura desligou o motor, desceu e
acariciou a cabea do co.
- Arco, co bonito. Se ao menos o teu dono
ficasse to contente como tu por voltar a ver-me!
- E fica!
Eberhardt aproximava-se dela. Laura, que
no o vira chegar, corou. Trazia novamente o cabelo apanhado 
naquela trana que lhe dava um ar austero. Ignorava ainda que 
Eberhardt descobrira a tramia e pensava que continuava a 
julg-la Renate von Sorppen. Eberhardt tinha vontade de
a beijar, mas conteve-se. Pegou na mala e levou-a para dentro de 
casa, dizendo:
 - Temos muitas coisas para tratar. Quer o
seu usque puro?
E sorriu. Desde que sabia que era Mike Kringel quem puxava 
os cordelinhos da intriga, compreendia o motivo por que a jovem 
fazia uma careta de cada vez que engolia um trago daquilo que 
dizia ser a sua bebida preferida. Mike certamente lhe dissera que 
ele a apreciava e Laura esforava-se por agradar.
Eberhardt, para dar-lhe uma lio, deitou no
copo uma aprecivel quantidade de usque, do
qual, corajosamente, ela bobeu um gole.
 - Menina Von Sorppen, estou certo de que,
tal como eu, deseja falar-me com toda a franqueza, no  verdade? 
- Laura concordou, pouco 
vontade, e ele continuou: - Por esta razo, queria contar-lhe o 
que me aconteceu. Fui recentemente a Engenstedt e, pelo maior dos 
acasos, vi Mike Kringel ao volante do seu carro, donde conclu 
que so amigos. At suspeito que foi Mike quem a aconselhou a 
responder ao meu anncio. No entanto, h uma coisa que no podiam 
saber: eu no tinha intenSes de contratar uma mulher para este 
trabalho, mas, entretanto, mudei de opinio. Apesar disso, 
apetece-me pregar

uma partida ao nosso amigo.  evidente que Mike est apaixonado 
por si e, por brincadeira, se
estiver de acordo, eu queria anunciar-lhe que ns
tencionamos... casar-nos. Quero apenas desorient-lo um pouco... 
A lio vai fazer muito bem quele insolente! O que pensa disto, 
Ren?
Ela permaneceu atrapalhada, o que lhe ficava bem.
A situao embaraava-a. No ousava confessar que era irm 
de Mike, o que comprometeria tudo, mas repugnava-lhe continuar a 
mentir. A sua curiosidade, contudo, foi mais forte. Suspirou e 
disse:
- Estou de acordo.
 - ptimo. Vou telefonar-lhe j e convid-lo
para jantar. Acha bem?
- Acho.
Eberhardt sabia que assim que voltasse as
costas Laura comunicaria com o irmo e talvez
mesmo com a senhora Von Pluttkorten, para
acertarem os planos, mas o que Laura ignorava
era que Eberhardt tambm tinha a sua estratgia estudada.
Este dirigiu-se  cozinha para dar instruSes.
 - Senhora Paulsen, convidei o doutor Kringel para jantar. 
Mande pr mais um talher na
mesa, por favor.
Ela olhou-o interrogativamente e anunciou a
ementa do jantar:
- Vou fazer bifes com cogumelos e uma
omeleta-surpresa para a sobremesa.
- Concordo com a ideia.
Em seguida, dirigiu-se aos estbulos, sentindo-se aliviado: 
saber que Laura ia trabalhar novamente no seu escritrio, na 
herdade, fazia-o feliz.
Tencionava manobrar bem e permanecer com vantagem, era uma 
questo de amor-prprio... Mike vai achar engraado que eu faa a 
corte  irm. E os Pluttkorten, pelo que sei deles, vo adorar 
contar esta histria a quem quiser ouvi-la. Imagino-os a 
descreverem minuciosamente as peripcias deste imbrglio, e 
Laura,  mais que certo, julga que eu sou um idiota que ningum 
leva a srio. Ainda que eu lhe agrade, ficar sempre
com a recordao de um rapaz simptico mas um pouco parvo."
Em voz alta exclamou:
- Eu no quero isso!
No tinha visto chegar o velho Meerkamp,
que lhe perguntou:
- Est a falar de qu, senhor baro?
Eberhardt sobressaltou-se.
- Meu Deus, Meerkamp, assustou-me!
 - O senhor baro no costuma assustar-se facilmente...
 - Dispenso os seus comentrios, Meerkamp.
Sim,  verdade, ela voltou e sei bem o que tenho
a fazer, no se preocupe!
Meerkamp olhou-o e acenou com ar chocarreiro.
- Quando se trata de mulheres, at os homens mais sensatos 
perdem por vezes a cabea e j nem sabem o que fazem, se o senhor 
baro me permite este reparo.
Eberhardt deu uma gargalhada:
 - Est bem, est bem, Meerkamp! Mas olhe que 
no deve menosprezar um Von Bercken!

 - Onde se meteu o Arco? Habitualmente anda atrs 
do senhor baro...
 - Est deitado debaixo da minha secretria. Desde 
que a nossa colaboradora regressou, no a largou mais. 
Est de cabea perdida por ela!
Eberhardt gracejou:
 - Era isso que eu estava a dizer, senhor baro. 
Nesses casos, os ces tm muitas parecenas com os homens.
Eberhardt tinha de confessar que estava nervoso. 
Sentia dificuldade em concentrar-se no trabalho e no 
sabia o que fazer.
O ambiente do almoo foi quase formal. Laura e 
Eberhardt falaram de vrios assuntos, com educao e 
at com certa reserva. Nem os esforos culinrios que a 
senhora Paulsen fizera para aquele almoo de 
reencontro conseguiram quebrar o gelo.
 - Tenho de ir falar com o guarda-florestal esta 
tarde - disse Eberhardt. - Se quiser, pode 
acompanhar-me, menina Von Sorppen. Ver como as 
coisas se processam e, futuramente, poder 
desembaraar-se sem mim.
- Quando partimos, senhor baro?
- Daqui por meia hora. Vamos a cavalo.
- Est bem.
O dia estava fresco mas soalheiro. A floresta
conservava ainda as cores do Outono. Uma gralha lanou o seu 
crocitar ao sentir aproximar os intrusos, no que foi seguida por 
outras aves, e foi um concerto de gritos e pipilares diversos.
O vento ia desprendendo as folhas das rvores,
que tombavam sobre os cavaleiros e as suas
montadas, ficando por vezes presas nas crinas dos cavalos.
Laura tinha pedido a Eberhardt que a deixasse
montar Dannyboy, explicando:
- Faz-me lembrar o meu querido Luxor.
Os seus olhos brilhavam de emoo.
- J sabe que  um cavalo caprichoso.
- Mas acho que gosta de mim.
E assim era. Dannyboy parecia gostar muito
dela e Eberhardt constatou que o cavalo irlands
lhe obedecia. Nunca o vira to dcil.
Sempre que um ramo de rvore o arranhava e
ele se desviava, Laura curvava-se e acariciava-o
no pescoo. Dannyboy reerguia a cabea e acalmava-se.
Assim que a vereda da floresta alargou, os cavalos puderam 
caminhar lado a lado, e Carmencita tratou logo de se aproximar de 
Dannyboy.
Eberhardt observou a jovem que cavalgava a seu
lado. Arco acompanhava-os, correndo por vezes
 frente, para voltar novamente para junto deles.
Um homem, o seu cavalo e o seu co... E dizer
que, numa certa poca, aquilo representara para
Eberhardt a felicidade perfeita! Fora preciso fazer
aquele passeio com Laura para se dar conta de tudo o que ainda 
lhe faltava... A mulher que cavalgava ao seu lado fazia-lhe 
saborear uma nova alegria de viver.
Ela sorria, de olhos brilhantes e faces rosadas.
Uma joaninha pousara na gola do seu casaco.

Incitaram os cavalos e partiram a galope.
Combinaram com o guarda os cortes de rvores a fazer na 
floresta e as medidas adequadas para proteger a caa. Laura foi 
perfeita. Beberam o caf que a mulher do guarda preparara.
No regresso, lanaram-se a galope atravs
dos campos. Eberhardt sabia que Laura tinha
tanto prazer como ele naquela corrida. Chegaram ao arroio.
- Devagar, devagar, Dannyboy - disse Laura.
O cavalo saltou o obstculo e Carmencita seguiu-o.
Arco, desesperado, olhava-os do outro lado
do curso de gua. J no era a primeira vez que
lhe faziam aquela partida.
Resolveu saltar e ladrou, para que o cumprimentassem pela 
prSeza, o que eles fizeram. Laura e Eberhardt apearam-se no 
ptio. Meerkamp esperava-os junto dos estbulos.
 - A Nixi est com dificuldades no parto - 
anunciou.  - No escolheu boa altura...
As dores tinham comeado. Nixi tremia e
lanava olhares suplicantes, coberta de suor.
 -  preciso chamar o veterinrio  -  disse Eberhardt.
- J foi chamado.
- E ento? Vem?
- Deve estar a chegar.
Mike Kringel, depois de um demorado esforo, ajudou Nixi a 
dar  luz. A cria era magnfica.
-  uma poldra - disse ele. - Igual  me.
Nixi era uma gua de cor castanho-avermelhada, com a crina e 
as extremidades das patas pretas. Era de constituio frgil e 
receara-se que no levasse a gravidez a termo. A poldra 
ergueu-se, com dificuldade, e aproximou-se da me,
com passos pouco seguros. Comeou a mamar.
Nixi carregara a cria durante onze meses.
Agora, finalmente calma, permanecia imvel para
que ela pudesse alimentar-se.
 - Venha, vamos para casa - disse Eberhardt
von Bercken.  - Voc tambm, Meerkamp.
- J l vou ter.
Eberhardt notara os olhares trocados entre
Laura e Mike, tendo ficado convencido de que j
se tinham falado ao telefone. "A grande incgnita nesta histria 
sou eu."
 - Vamos beber champanhe ao jantar  - 
adiantou.  -  um dia de festa.  - Foi buscar
uma garrafa de Dom Prignon  cave e abriu-a.
Serviu-os e comeou a falar:  -  Temos vrias
coisas para festejar. Em primeiro lugar, o nascimento da cria de 
Nixi, que, adivinho, vai ser
uma linda gua e, tenho essa esperana, ganhar
muitas corridas! O acontecimento merece bem
que nos deliciemos com champanhe, bebendo a
taa de uma s vez.
Laura, inquieta no comeo, sentiu-se aliviada
o ouvir o pequeno discurso de Eberhardt, mas
ele no ficou por ali.
- Antes de saborearmos a refeio da senhora Paulsen, temos 
que brindar a outro acontecimento.
Eberhardt estava morto de riso, a situao divertia-o. Laura 
parecia aflita, pensando que ele

continuava a julg-la neta dos Pluttkorten.
 - Mike, vais ter o privilgio da notcia em primeira mo: a 
menina Von Sorppen decidiu transformar o seu perodo de 
experincia em contrato definitivo.
 - Muito me regozijo com isso...  -  disse Mike.
 "Que hipcrita!", pensou Eberhardt.
 - Ainda no acabei. Podemos dizer-lhe, no
 verdade, Ren? A Ren e eu tencionamos ficar
noivos oficialmente. O contrato de que falei h
pouco no  de ordem profissional, mas sim
muito... pessoal!
Mike parecia embaraado.
"O pobre j no sabe a quantas anda", regozijou-se 
Eberhardt. "Estou certo de que a Laura lhe explicou que esta 
histria do noivado no passa de uma brincadeira. Deve estar  
espera de que os meus sentimentos pela irm sejam to
fortes que eu lhes perdSe a aldrabice."
- Vem c, minha querida - disse ele.
Ela aproximou-se e Eberhardt pousou o brao sobre os ombros 
dela. Laura corou.
Eberhardt ergueu a taa e brindou com Laura, a quem puxou 
meigamente para si. Curvou-se e beijou-a.
Laura gostaria de ter podido dizer: "Basta, isto foi apenas uma 
brincadeira", mas a presena de Eberhardt, o beijo, a sua 
ternura, perturbavam-na tanto que no foi capaz de dizer nada.
Mike Kringel bebeu o champanhe um pouco 
apressadamente. J no percebia nada do que se estava 
a passar. As coisas no aconteciam como planeara. 
Nem Laura nem Eberhardt se comportavam de maneira 
sensata... Mike estava perplexo. E, no entanto, conhecia 
bem o amigo, que no permitia facilmente que uma 
mulher se aproximasse dele. E agora punha-se a beijar 
em pblico uma jovem que tomava por outra! Mike nem 
sequer admitia que Eberhardt fosse capaz de estar a reagir. 
O que lhe fazia confuso era a maneira como 
Eberhard se portava com Laura. Usara uma voz to 
meiga quando dissera: "Vem c, minha querida"... E 
Laura parecera to perturbada... Mike, que sempre se 
considerara um conquistador, sentia-se inseguro. E o dia 
j tinha contribudo para que perdesse uma boa parte da 
sua antiga segurana...


6

Mike Kringel acabava de terminar as consultas quando a 
empregada lhe estendeu o telefone.
 - H uma urgncia em Pluttkorten, senhor doutor.
Desde o dia em que descobrira que Renate o
atraa, ficava perturbado s por ouvir o nome de Pluttkorten.
- Est? Fala o doutor Kringel.
- Bom dia, fala Renate von Sorppen.
Era ela!
 - Acabo de saber que h uma emergncia
em vossa casa.  grave?
 -  muito grave. Sinto-me to sozinha aqui, no campo...
 - S vejo um remdio para isso: venha a minha casa e d uma 
vista de olhos aos meus filmes de vdeo...

 - Na verdade, era eu quem queria convid-lo
para vir c. Os meus avs vo jogar brdege com
uns amigos esta tarde, e eu fico aqui sozinha...
Mike sentiu-se feliz com a ideia de se encontrar a ss com 
Renate, em casa dela.
 - Parece que eu sou muito dotado para animar as estadas no 
campo!
 - Venha j, se puder. Estou impaciente por
voltar a v-lo.
- Vou imediatamente!
A empregada de Mike, a senhora Mller, que
j tinha assistido a muita coisa durante os anos
que passara no consultrio daquele Casanova,
soltou um suspiro resignado. Felizmente para
ela, era demasiado velha, demasiado vulgar e,
acima de tudo, amava demasiado o marido para
que Mike se interessasse pela sua pessoa.
"C est mais uma vtima", pensou. "As mulheres so muito 
parvas. Basta que lhes aparea um Don Juan e todas se deixam 
seduzir. As mulheres no tm pudor nenhum!"
Mike sabia o que ela pensava e troava disso.
Assobiava, enquanto deitava um pouco de perfume no peito com um 
vaporizador. Mudou de
roupa interior, trocou de camisa e de calas e envergou um casaco 
de cabedal. Para terminar, friccionou o rosto com loo da barba.
Saltou para dentro do carro, fazendo votos
para que por uma vez este pegasse.
Estava um tempo maravilhoso. Sentia-se de
bom humor, ao pensar nos olhos de Renate, na
sua figura, nos seus cabelos. Era realmente uma
rapariga encantadora, e ele percebia do assunto!
Sabia que no iria decepcionar-se.
ao chegar a Pluttkorten, estacionou o carro longe da casa. O 
caseiro escusava de saber da sua presena. De qualquer modo, 
preferia ser discreto e evitar mexericos.
Desceu do carro e um bando de gansos precipitou-se sobre 
ele.
Era difcil acalmar gansos em fria... Tentou
agarrar pelo pescoo o macho que lhe mordia o
casaco.
- Estpido animal!
O caseiro acorreu aos seus gritos. Acabaram
por dominar aquelas harpias e enxotaram as aves
at ao seu recinto vedado.
Ali, Mike encontrou Renate von Sorppen,
com ar fingidamente desolado, de dedo na boca,
como uma criana que fez uma asneira. E ria.
 - Lamento imenso. Fui eu quem os soltou,
sem querer. Meu Deus, doutor, espero que no o tenham magoado!
Mike acabava de se restabelecer das emoSes sofridas. 
Afinal, os esforos que fizera para entrar discretamente tinham 
sido em vo. Tentou manter a dignidade e respondeu:
 - No foi nada, estou bem. O meu alfaiate
vai arranjar o rasgo do casaco, e, quanto s calas... j 
aguentaram coisas piores!
E, para ser ouvida pelo caseiro que verificava
a cerca dos gansos, Renate disse:

 - Suponho que procura os meus avs, mas
no tem sorte, eles saram. Mesmo assim, entre,
bem precisa de uma bebida para se recompor destas emoSes.
Atravessaram o vestbulo, subiram a escadaria e, depois de 
percorrerem um labirinto de corredores interminveis, chegaram 
finalmente a uma diviso que servia de sala de estar e de quarto 
de dormir, uma espcie de estdio. Mike recuperou certas 
esperanas.
 -  aqui que eu moro - disse Renate. - Espero que este dia 
assinale o comeo de uma grande e bela amizade entre ns, como 
voc, caro Mike, dizia no outro dia. Tenho a certeza de
que veio com intenSes de me seduzir, no  verdade?
- Como?
Mike ficou embaraado e olhou-a com ar escandalizado. A 
jovem infringira as regras da mais elementar decncia. Em seu 
entender, o homem  que devia mostrar-se atrevido, enquanto a 
mulher devia parecer inocente...
Renate parecia um duende, com uma boca
linda e dentes muito brancos.
 - No, no, Mike, no sinta acanhamento!
Sei bem no que est a pensar. Ponha-se  vontade. E se nos 
tratssemos por tu?
- Mas o que significa isto?
 - Sabes muito bem, querido. Pareces muito tmido, ento? 
No te preocupes, eu estou aqui e vou ajudar-te.
Aproximando-se dele, comeou a desabotoar-lhe o casaco e a 
camisa, com gestos experientes.
Bom", decidiu Mike, j que assim , vou
entrar no jogo. De qualquer maneira, no tenho
outra alternativa".
No se sentia  vontade. Tentou abra-la,
mas a jovem esquivou-se.
 - Tive uma ideia - disse ela.  - Fica a e,
principalmente, no te mexas.
Dirigiu-se para a janela e fechou as cortinas.
Depois, acendeu a luz de cabeceira e cobriu-a
com um leno vermelho. Tirou um frasco de
uma gaveta e aspergiu perfume, andando em
volta do quarto.
 - Vou mudar de roupa na casa de banho.
Queres ouvir msica?
Ps a tocar uma velha cassete de Bing Crosby, dirigiu-lhe um 
sorriso hipcrita e desapareceu na casa de banho. Mike no sabia 
o que pensar.
"Ora esta!", disse para consigo. Parece uma
vamp de Hollywod dos anos trinta. Uma verdadeira Me West! E vem 
de uma excelente famlia. Estas feministas so de temer!"
Renate saiu da casa de banho. Mike preparou-se para a prova 
que o esperava: tinha de mostrar a
sua virilidade. Avanou para ela, de braos estendidos, para 
cumprir o ritual da seduo. Normalmente, antes desta fase, j 
tinha cortejado um pouco as suas conquistas. Gostava de o fazer, 
para prolongar o prazer. Renate tratara-o como um
autmato. Mete-se uma mSeda, carrega-se num
boto e sai um mao de cigarros ou de bombons.
Estas mulheres ditas emancipadas no eram muito peritas na arte 
do amor...
- Renate, querida...

Mas ela fugiu de novo.
- Mike, e se lssemos juntos um captulo de
Kamasutra, sabes, a iniciao ao amor hindu? Vais
ver, cria um certo ambiente...
A expresso de Mike ensombrou-se... O caminho que tomavam os 
acontecimentos no lhe agradava.
- Iniciao ao amor hindu? Para qu?
 -  uma questo de tcnica, meu querido.
Estou convencida de que te falta experincia...
Desta vez era de mais. Mike estava furioso.
No se sentia descontrado junto dela e lamentava ter vindo. 
Depois do azar com os gansos, ainda tinha de sujeitar-se a uma 
comdia ridcula!
Resolveu passar ao ataque e apertou-a contra
si. Renate deu um gritinho e depois queixou-se
em tom desanimador:
 - Cuidado, querido! No te esqueas dos preliminares!
Mike tentou o melhor que pde, mas o resultado foi... 
desastroso.
"Isto  o fim", pensou. " a primeira vez que
me acontece uma coisa destas. Esta maldita estragou tudo com esta 
encenao ridcula."
Renate no o poupou.
 - No faz mal, querido. Pode acontecer a
qualquer um.  falta de experincia, mais nada.
Mike achou prefervel bater em retirada. Despediu-se de 
Renate e dirigiu-se para o carro, de cabea baixa. Chegara a 
Pluttkorten como um conquistador e saa derrotado! Estava 
colrico.
"Mike, acabas de perder a honra", disse para
consigo. "Esta mulher troou de ti e isso no se admite. "
Decidiu vingar-se: uma dia havia de t-la nos
braos e mostrar-lhe como sabia ser um bom amante.
- Quero que tu me ames!
Teve um sobressalto:
"Ento? O que est a acontecer comigo?
Nunca dei importncia ao amor das mulheres.
O amor s traz problemas e complicaSes, principalmente no 
momento das despedidas. Desta vez... Desta vez, tenho a impresso 
de que as coisas so diferentes."
Sorriu e por fim murmurou:
 - Encontrei uma parceira  minha altura.
A batalha no est perdida.
Renate, ainda nervosa, descera at  sala
e servira-se do conhaque que no chegara a dar a
Mike. O estratagema tinha resultado, mas no
estava certa de ter atingido o objectivo almejado.
Talvez ele se tivesse desinteressado... Ou no esquecesse a lio 
que recebera. Para Mike, ela passara a ser a mulher que tinha 
tido a audcia de lhe resistir, que no lhe cara nos braos, e 
tal coisa devia ser novidade para ele!
Mike estava impagvel, com cara de quem
foi  caa e foi caado! "Nunca pensei que fosse
to fcil fazer-lhe perder a pose. Parecia completamente 
desorientado, pobre querido! At pode
acontecer que eu me apaixone por ele..."

Estendeu-se na poltrona. Com os cabelos encaracolados, a 
boca bem desenhada, a tez bronzeada e o narizito arrebitado, 
parecia-se com um dos jovens pastores pintados por Murillo. 
Vestia um roupo de seda verde-plido que revelava o
comeo dos seios e caa at aos ps no estilo de
um vestido Imprio, deixando ver as unhas pintadas. Enroscou-se e 
ficou a pensar. S lhe restava esperar pela reaco de Mike.
"Meu Deus", pensou, "nada disto poderia
acontecer em Berlim. Numa grande cidade faz-se
tudo depressa, nem se tem tempo para respirar e
saborear os verdadeiros prazeres da existncia.
S mesmo no campo podemos descobrir de novo a arte da galanteria 
e das intrigas amorosas... "
Quando Mike chegou a casa j a senhora
Mller tinha sado. Olhou a sua imagem no espelho da entrada e 
desviou o olhar: aquele vagabundo com o vesturio meio rasgado e 
de semblante alterado no podia ser o doutor Kringel.
O belo doutor Kringel, sempre to cuidadoso
com a sua pessoa, sempre to sedutor... No gostaria de que a 
senhora Mller o tivesse visto naquele estado!
Mike pensava nas suas desgraas e tentava
compreender o que lhe acontecera. Perguntou-se
se Renate no teria deixado escapar os gansos de
propsito. Era bem capaz disso! Nesse caso, podia igualmente ter 
armado toda aquela encenao no quarto de cama. Era evidente, ela 
quisera vingar-se.
Estava cego de todo, para no ver o que se
passava. "Eu, que me encarrego da estratgia
amorosa da minha irm, deixo-me apanhar na
primeira armadilha que me estendem! Armadilha,
 o nome exacto."
Abatido na poltrona, o casaco como um trapo, Mike parecia um 
vagabundo.
"No perdem nada por esperar, os gansos.
Hei-de comer-lhes os fgados em breve e sabore-los com raro 
prazer. E quanto  menina Von Sorppen, vai ver como elas mordem. 
O meu casaco vale uma boa ensinadela!"
O telefone tocou. Por momentos, teve esperana de que fosse 
Renate, a pedir-lhe desculpas e, talvez, a convid-lo de novo. 
Mas a chamada vinha da herdade de Bercken. Uma gua estava em 
trabalho de parto e precisavam dele. Mudou
de roupa apressadamente. Que dia!
O carro demorara a pegar. Nem valia a pena
mand-lo  oficina! Mike sentia-se de mau humor enquanto se 
dirigia para Bercken.
A noite aproximava-se e o Sol afundava-se
no horizonte, numa orgia de vermelho, violeta e
laranja. Um esquilo saltava num carvalho. A folhagem esbatia-se 
na prpura do crepsculo. Por entre o arvoredo, divisava-se a 
torre da casa, sobre a qual flutuava o estandarte com as cores 
dos Bercken. O espectculo era belo e Mike sentiu-se um pouco 
mais calmo.
Tinham bebido champanhe para festejar o
nascimento da cria de Nixi e o noivado" de
Eberhardt e de Laura. Mike voltou a sentir-se
abatido. Amava a irm e no suportava v-la nos
braos do seu amigo Eberhardt. E Laura consentia! Parecia 
enfeitiada. Mike tinha vontade de acabar com aquela brincadeira 
duvidosa, mas para isso teria de trair a irm.

Depois do jantar, Laura e Eberhardt tinham-se sentado um ao lado 
do outro no canap da sala. Eberhardt passara-lhe um brao sobre 
os ombros e a outra mo repousava nos seus jSelhos. De vez em 
quando, beijava-a no pescoo.
Parecia feliz.
Mike estava inquieto.
"Ele vai ter um ataque de fria quando souber que a feliz 
eleita no  Renate von Sorppen, mas Laura Kringel, irm do seu 
amigo Mike. Desde que no me desafie para um duelo.  to
antiquado que seria bem capaz disso."
Eberhardt triunfava. Finalmente, era ele
quem puxava os cordelinhos da intriga. Aquela
criatura encantadora estava numa situao complicada. Quanto a 
Mike, tinha a expresso de uma vaca surpreendida por um raio... 
Eberhardt sentia-se orgulhoso dos seus talentos de actor. Mike e 
Laura pareciam no terem adivinhado
nada.
 - Meu caro Mike - disse de repente - , na
verdade esperava que te mostrasses um pouco
mais alegre no dia em que tomei a deciso de refazer a minha 
vida, mas ests com um ar muito lgubre. Passa-se alguma coisa? 
Diz-me o que  e poderemos falar francamente os trs. Por acaso 
no estars tambm um pouco apaixonado pela
Ren?
Mike perdeu o sangue-frio:
 - No digas tolices! - Mas dominou-se e
acrescentou apressadamente: - No posso negar
que a Renate  encantadora, mas mal nos conhecemos e... "Se eu 
no soubesse que s irmo dela," pensou Eberhardt, "ficaria muito 
sensibilizado. No
perdes pela demora, malandro..."
Depois da partida de Mike, Eberhardt retomou um tom distante 
para se dirigir a Laura:
 - Acho que foi o bastante. Ele estava furioso. Agradeo a 
sua cumplicidade, menina Von Sorppen. Espero que lhe tenha 
servido de lio. Garanto-lhe que  um verdadeiro Don Juan e
chego a perguntar-me o que  que as mulheres vem nele. Mas eu 
sei que sob aquela aparncia irritante de um sedutor, trata-se de 
um bom rapaz. Vou deix-la, ainda tenho de trabalhar. Boa
noite.
- Boa noite.
Laura sentia dificuldade em falar, ainda emocionada pela 
ternura que Eberhardt lhe dedicara durante todo o sero. E, logo 
a seguir, abandonava-a. Arco corria de um lado para o outro. Um 
pouco infeliz, resolveu seguir o dono, que saa
da sala.
No escritrio, Eberhardt deixou-se tombar
na poltrona do costume e descansou a cabea entre as mos. Estava 
longe de se sentir to desprendido quanto tinha querido aparentar 
perante Laura. Evocava a maciez dos seus cabelos, o
cheiro da sua pele, os olhos claros. Ela corava
facilmente e, estava certo disso, estremecera
quando ele a beijara. A brincadeira tornava-se penosa.
"O que farei eu se a mulher que amo se afastar de mim? 
Talvez eu a tenha ofendido... Gostaria que ela me compreendesse. 
Afinal, eu no podia deixar-me manobrar e aceitar um papel to 
ridculo." Ergueu a cabea e soltou um suspiro. A orqudea fora 
substituda por flores cor de

malva e amarelas.
Lembrou-se de Mike e sorriu, ferozmente.
Que traidor! Mike era o culpado de tudo. Fora
ele quem o atrara para aquela armadilha e servira-se at da 
prpria irm para conseguir os seus fins. Bem merecia ser chamado 
 ordem.
Eberhardt levantou-se e ligou o rdio. Uma
voz de mulher dizia:
 "Caros ouvintes, vo escutar agora a nossa
emisso "Blues no corao da noite"." Depois,
ouviu-se a msica de Duke Ellington. Alegria e
nostalgia...
Eberhardt descontraiu-se. Arco, que se deitara
junto do canap, ergueu-se e espetou as orelhas.
 - No te vais pr a cantar, tu tambm. Deitado, Arco!
Algumas melodias e certos instrumentos transformavam Arco em 
cantor romntico. Nessas ocasiSes, estendia o focinho para o cu 
e soltava longos uivos. Era especialmente sensvel ao
piano e aos blues.
Arco fitou o dono, que habitualmente ria das
suas actuaSes artsticas. Porm, aquela noite era
diferente. Deitou-se e voltou a fechar os olhos.
Eberhardt ps-se a rir.
 - Ele que se arranje com a embrulhada que
arranjou, no , Arco?
Arco abriu os olhos. Eberhardt levantou o telefone e marcou 
o nmero de Mike.
Laura subira para os seus aposentos. Abriu a janela 
e apoiou-se sobre os cotovelos. A noite estava lmpida. 
A Lua parecia um lampio. Algumas nuvens negras 
ocultavam ocasionalmente as estrelas.
O parque estava silencioso. Protegia a casa dos 
rudos exteriores. Algumas luzes brilhavam aqui e alm.
Laura sentia vontade de chorar. No sabia se devia 
continuar aquele jogo absurdo. Estava apaixonada por 
Eberhardt e  sua merc. Amava-o, tal como amava 
tudo o que constitua o universo dele: os animais, os 
edifcios da quinta, a grande manso, as rvores e os 
caminhos que serpenteavam atravs do parque. E tinha 
medo de ser obrigada a deixar tudo aquilo em breve.
"Tenho a certeza de que vai mandar-me embora! 
Meu Deus, se eu tivesse podido adivinhar a importncia 
que ele viria a ter para mim, nunca me teria lanado em 
semelhante aventura. J no percebo o que se passa. O 
Eberhardt julga ter feito cimes ao Mike, mas o que far 
quando souber que o Mike  meu irmo e que 
organizmos toda esta farsa? Fizemos mal em envolver a 
Renate e os Pluttkorten nesta histria. Mas Amlia von 
Pluttkorten, com as suas ideias, tambm tem culpa. O 
esquema que resultou quando ela era jovem no podia 
vingar nos dias de hoje. As pessoas tornaram-se mais 
prosaicas e mais desconfiadas. "
Laura mirou-se longamente no espelho do quarto. 
Pela janela escancarada entrava uma aragem fresca. Antes do 
jantar, tinha mudado de roupa: trocara o fato de montar por um 
vestidinho de la branca. Os cabelos louros caam-lhe
sobre os ombros, realando o bronzeado da pele.
A luz do candeeiro reflectia-se no mogno dos mveis.

Achou que parecia uma noiva, mas afastou
tal pensamento. Despiu o vestido.
"Para j, no vou fazer nada. Deixarei que as
coisas sigam o seu rumo. H sempre tempo para
fazer as malas, se a minha presena se tornar inoportuna. "
Fechou a janela e ligou o rdio.
A mesma locutora dizia:
"Caros ouvintes, vo escutar agora a nossa
emisso "Blues no corao da noite"."
Laura fechou os olhos. Aquela msica convinha ao seu estado 
de esprito.
Depois de uns momentos, levantou-se e desligou o rdio. A 
msica perturbava-a e precisava de calma.
"Acho que no vou pregar olho esta noite."
No entanto, no tardou a adormecer.
Mike Kringel regressara a casa. Normalmente, quando vinha de 
uma aventura nocturna, preparava um ch bem forte, com mel, e um 
bom copo de rum. Era o seu elixir da vida.
Naquele dia, atirou-se para o canap, sentindo-se 
melanclico. No parecia um Don Juan.
"Isto vai mal", pensou. "Quem iria prever
que uma brincadeira to inofensiva tomasse tais proporSes?"
A pobre Laura viera de Berlim para superar
uma decepo sentimental. Mal tinha acabado de
deixar um homem que a fazia infeliz, metia-se
noutra histria. E como acabaria tudo aquilo?
Era tarde de mais para convencer Eberhardt de
que se tratara apenas de uma partida sem importncia.
"Deixmo-nos ultrapassar pelo nosso argumento. E, ainda por 
cima, arranjei maneira de me ridicularizar aos olhos da Renate!"
Naquele instante tocou o telefone. Mike hesitou em atender. 
As ltimas chamadas s lhe tinham causado aborrecimentos, mas a 
curiosidade foi mais forte do que a prudncia. Do outro lado do 
fio, Eberhardt, numa voz de trovo que at o assustou, exclamou:
 - Mike, velho irmo! Foste para casa a p ou
qu? J liguei para a vrias vezes, sem te encontrar. Aqui para 
ns, diz-me l como te pareceu ela? No  adorvel? Conseguiria 
vencer o solteiro mais empedernido, no achas? Pelo menos, a 
mim,  a ideia que me d.
Mike resolveu, por fim, dizer a verdade:
 - Ouve, Eberhardt, tenho uma coisa para te confessar...
Pelo menos, escusava de recear uma reaco
violenta de Eberhardt. No entanto, este nem lhe
deu tempo de falar:
 - No vale a pena, meu velho, sei o que vais
dizer-me: compreendi tudo desde o primeiro instante. Ests 
loucamente apaixonado por ela, no  verdade?
Mike tentou desfazer o mal-entendido:
- Eberhardt, as coisas so to...
 - No te preocupes, Mike, tu conheces-me.
Tenho medo de me ligar a uma mulher, mas
com esta o problema nem sequer se pSe: o amor
no tem nada a ver com o nosso noivado. Acho-a deliciosa e  
tudo. Por que motivo hei-de recusar a mim prprio este pequeno 
prazer? Alis, este gnero de histrias  frequente. No tm

conta as mulheres que fingem procurar um emprego e s querem uma 
aventura... Na realidade ela no pode ser a auxiliar que eu 
desejaria na herdade, percebi logo isso. Esta histria no
constitui compromisso para ningum,  apenas
uma aventura agradvel e sem futuro, aps a
qual ela partir novamente para outros horizontes. Talvez v 
aterrar em tua casa, amigo. Quem sabe? No percas a esperana!
 - Eberhardt! Queres ouvir-me? Tenho algo
de importante para te dizer.
Mike ia perdendo a pacincia.
 - Desculpa-me, Mike, mas agora tenho de
ir ter com ela. Deixa para outra altura, est bem?
Fico contente por saber que ela tambm te agrada. Todos os homens 
apreciam que um velho companheiro lhes cobice a amante.
         - Imbecil, ela  a minha irm!  a Laura!
No valeu de nada. Eberhardt j tinha desligado. Mike 
levantou-se e ps-se s voltas na sala.
"Isto  insuportvel! Ele nem sequer me ouve. E quando penso 
na maneira como trata a Laura! Que comportamento!"
No fim de contas, Eberhardt comportava-se
talvez como ele, Mike, tinha o hbito de fazer
com as mulheres...
"Ah, no! Mais devagar! Neste caso  bem
diferente! No se trata de uma mulher qualquer,
a Laura  minha irm. Tenho de intervir. Ela no
sabe, mas ele est a lev-la  certa."
Precipitou-se de novo para o telefone e tentou ligar para 
Eberhardt von Bercken, mas ningum atendeu. Talvez j fosse tarde 
de mais...
Uma ltima vez tentou telefonar a Eberhardt
e deixou a campainha tocar bastante tempo, sem resultado.
Eberhardt encontrava-se junto do telefone e
ouvia-o tocar, divertido.
 - Ests a ver, Arco, o nosso amigo est em
pnico! - disse Eberhardt. - Pode continuar a
tentar falar comigo, o telefone de Bercken no
atende. Silncio total! Pois , meu caro doutor
Kringel, o senhor s tem aquilo que merece.
EsEregava as mos e parecia to contente que
Arco foi buscar a sua rolha debaixo do canap e
levou-a para junto dos ps do dono. Desta vez,
Eberhardt no se furtou  brincadeira, e, com a
ponta do p, fez rolar a rolha at ao outro extremo da sala. Arco 
correu para ir busc-la. Para o co, tudo tinha voltado  
normalidade.
Naquela noite, Laura sonhou que se encontrava numa rua muito 
comprida e estreita. Fazia escuro e estava sozinha.  claridade 
de um candeeiro, viu qualquer coisa a brilhar. Avanou para a luz 
e distinguiu uma mSeda de um marco.
Apanhou-a e meteu-a no bolso do casaco de peles. Um pouco mais 
longe, descobriu uma segunda mSeda, depois outra e outra ainda. O 
cho estava juncado de mSedas novas, reluzentes.
Apanhou-as todas e chegou, assim, ao fundo
da rua. Dois homens de aspecto pouco tranquilizador 
encaminhavam-se para ela. Voltou-se e
tentou fugir, mas os bolsos do casaco estavam
pesados por causa das mSedas que tinha acabado
de apanhar, e s podia caminhar lentamente. No

outro extremo da rua havia dois latagSes impressionantes que 
barravam a passagem. Empunhavam mocas, usavam longas barbas e 
traziam mscaras. Ps-se a gritar, chamando por Eberhardt.
Sentiu-se leve, abriu os braos e voou.
Do alto, via uma plancie, vinte metros abaixo de si. O 
casaco tinha desaparecido e o vestido que usava era leve, etreo. 
As mSedas danavam  sua volta, como pequenas estrelas. No havia 
medo nem vertigens, antes uma sensao de
bem-estar. Reconheceu as pastagens da herdade
de Bercken. Carmencita e Dannyboy galopavam
ao longe, por entre rannculos e narcisos bravos.
A brisa fazia ondular os ramos das rvores
como se fossem a gua de um lago. Uma nuvem
de bruma envolveu-a e dep-la no cho. A bruma
dissipou-se e Laura avistou um terceiro cavalo que
atravessava o prado. Um grande cavalo negro, parecido com 
Dannyboy. Era Luxor! O animal relinchou e, sem saber como, Laura 
encontrou-se no dorso dele, partindo a galope. Eberhardt galopava 
ao seu lado, como tinha feito dias antes.
Penetraram numa enorme bola de fogo, que os envolveu. Ela no via 
nada, mas sentia a presena do homem que amava. Ouviu uma buzina 
de automvel, uma voz de homem e o ladrar de um co.
Laura acordou, saltou da cama e, na precipitao, quase 
escorregou. Era noite. Tinha sonhado, mas os rudos, esses, eram 
reais. Correu para a janela e olhou para fora. Mike, o irmo, de 
p, ao lado do seu carro, parecia muito agitado.
Arco j vinha ao seu encontro, para o cumprimentar. 
Eberhardt aproximava-se. Laura teve
um movimento de recuo e escondeu-se atrs da
cortina. Eberhardt estava completamente vestido; ainda no se 
deitara. Mike parecia furioso e Eberhardt muito calmo. Laura 
chegou a ter a impresso de que Mike ia atirar-se a Eberhardt,
mas este segurou-o por um brao.
"Olha", pensou Laura, "ele teve este gesto
comigo, para me agarrar o brao e eu no pude
resistir-lhe. A seguir, beijou-me..."
Fechou os olhos, tremendo.
Quando os abriu de novo, os dois homens e
o co haviam desaparecido. O velho carro de
Mike continuava l, como prova de que no sonhara.
Perto dos estbulos, Meerkamp fumava o seu cachimbo, 
assistindo ao nascer do dia. Depois foi
deitar-se.
Laura receava que Mike revelasse a verdade a Eberhardt. Este 
ficaria vexado, pois Mike e Laura tinham-no levado a desempenhar 
um papel de idiota. Nunca lhes perdoaria.
Resolveu agir, antes de ser expulsa da herdade. 
Apressadamente, meteu algumas camisolas dentro do saco, 
esquecendo os vestidos, e saiu do quarto a correr. Desceu as 
escadas sem fazer barulho. No rs-do-cho, abriu a porta da 
entrada.
"Oxal que o Arco no d por nada! Seria o
cmulo, ser descoberta em flagrante delito de fuga! "
Esgueirou-se at  garagem. No se dera ao
trabalho de se vestir antes de partir, contentando-se em enfiar o 
casaco de peles sobre a camisa de
noite, pelo que tiritava de frio. O carro de Mike
estava mal estacionado e impedia-a de tirar o seu da garagem.
"S me faltava mais esta! Quando conseguir

sair daqui terei acordado a casa inteira. Eberhardt
e Mike vo aparecer e vou ficar malvista. Felizmente, tenho a 
chave da garagem."
Sem fazer barulho, abriu a porta do seu carro, bem 
insignificante, comparado com a luxuosa viatura de Eberhardt. 
Ligou o motor e conseguiu tirar o carro da garagem, mas roando 
no de Mike. Pelo rudo, ficou a saber que o tinha riscado.
O velho Meerkamp no tinha ido deitar-se.
Colocara-se atrs de uma rvore, num recanto
sombrio, e observava a cena, dizendo para consigo que as pessoas 
da alta sociedade tinham comportamentos bem estranhos!
"Nos tempos de agora, demoram a tornarem-se adultos", pensou. 
"Tm todas as liberdades, vivem bem, talvez at bem de mais... 
Oh! Tudo acabar por se resolver."
Fritz Meerkamp j vivera o suficiente para ter
assistido a muitos dramas.Laura transps a entrada da propriedade 
como se deixasse o prprio paraso. Tambm ela
no estava inocente!
"Para onde hei-de ir? No posso ficar dentro
do carro at ser dia e no me apetece nada ir para
um hotel. Estou mesmo a ver a cara do porteiro,
ao ver-me chegar sem bagagens e nesta figura!
Causaria uma triste impresso, ainda que me embrulhasse bem no 
casaco para esconder a camisa de noite."
quela hora muito menos podia apresentar-se em casa dos 
Pluttkorten e no queria refugiar-se em casa de Mike. Alis, nem 
tinha a chave da casa dele. Partir para Berlim? Reparou quenem 
sequer tinha roupa para se vestir completamente. Apetecia-lhe 
chorar, mas fez um esforo
para no se deixar abater.
Decidiu ir at  localidade mais prxima.
Ningum a conhecia, invocaria uma avaria no
carro. Se se conservasse calma, aceit-la-iam num hotel, apesar 
do vesturio. Trazia os documentos e algum dinheiro.
Teve vontade de olhar para trs, para ver pela
ltima vez a herdade de Bercken, mas resistiu a faz-lo.
Acelerou, sem lgrimas.
Meteu pela estrada nacional que contornava
Engenstedt, conduzindo sem pensar em nada,
como um autmato. Uma raposa atravessou a
estrada. Encandeada pelos faris, deteve-se
a meio do asfalto. Laura travou, a raposa prosseguiu a sua marcha 
e desapareceu no bosque circundante.
Aquele instante tivera algo de mgico, fora
quase irreal. A raposa ia dar-lhe sorte. Tinha a
certeza de que olhara para ela.
De qualquer modo, despertara-a, pois Laura
estava quase a adormecer ao volante. A viso da
raposa trouxera-lhe conforto e encarou o futuro
com mais serenidade.
Chegara a uma povoao. O Hotel da Malaposta, velha 
construo romntica, pareceu-lhe
agradvel. Laura estacionou o carro e desceu.
Encaminhou-se para o edifcio, lamentando,
nesse instante, ser mulher. Ningum ficaria
admirado se visse chegar um homem sozinho e
sem bagagens, a uma hora to matinal, mas uma mulher!

A povoao era minscula e a rua principal
encontrava-se silenciosa. O hotel, evidentemente, estava fechado. 
No se via qualquer luz, tudo parecia abandonado.
Laura quis fazer girar a maaneta da porta:
em vo. Acabou por descobrir a campainha e
premiu o boto. O som, estridente, lembrava
um sinal de alarme. Dentro da casa ouviu-se ladrar um co. Algum 
tentou acalmar o co e a chave rodou na fechadura. A porta 
entreabriu-se e depois abriu-se completamente. Laura encontrou-se 
na presena de trs ces enormes. Teve
de levantar bem a cabea para ver o rosto do dono dos ces. 
Eberhardt era alto, mas aquele homem era um verdadeiro gigante.
Tinha os cabelos ruivos desgrenhados. Provavelmente Laura 
fizera-o sair da cama. Usava um fato de treino. A voz dele 
parecia a sirena de um paquete quando lhe perguntou:
- O que se passa?
 - Tive uma avaria no carro  -  explicou.  - Pensei que 
tivesse um quarto para passar a noite...
O gigante olhou-a com ar incrdulo e troou:
 - Para passar a noite! Esta menina diz cada
uma! A noite j acabou h muito tempo.
- Bom, isso no quer dizer nada.
Laura j s queria ir-se embora daquele lugar
sinistro. Mas o gigante no lhe deu tempo para
isso. Com delicadeza, segurou-lhe no brao.
 - Estava a brincar! Entre. Tem aqui todos os
quartos que quiser. Para falar verdade, esto todos livres.
E conduziu-a para o interior.
Laura no estava com vontade de passar ali a
noite, mas fez um esforo para disfarar o medo
que sentia. Laura Kringel, conselheira fiscal de
profisso, tinha medo! Que coisa ridcula! Perguntava a si mesma 
o que lhe dera na cabea para se meter naquela trapalhada.
O enorme ruivo fez um gesto com o brao,
convidando-a a entrar numa sala:
- Faa o favor.
Mostrava tanta dignidade como o gerente de
um hotel de cinco estrelas. Laura encontrou-se
na sala do restaurante do hotel. Havia fumo, mas
a temperatura estava agradvel e o ambiente pareceu-lhe 
acolhedor. Junto das janelas havia vasos
de flores, de cermica. Os trs monstros j no
pareciam to ameaadores e deitaram-se perto de
Laura, embora vigilantes.
- Isto  mesmo um hotel?
O ruivo desatou a rir:
 - Claro que  um hotel!  -  respondeu.  - Desde que 
desviaram a estrada nacional, no aparece quase ningum. A 
senhora  a primeira cliente da semana,  verdade! Temos de 
festejar. Para comear, vou preparar para ns um bom
pequeno-almoo, por conta da casa, e depois poder ir descansar. 
Tratarei de que ningum venha incomod-la. Pela sua cara, precisa 
de uma boa cura de sono. Desculpe este detestvel cheiro a 
tabaco, mas estivemos a jogar s cartas at tarde e no esvaziei 
os cinzeiros.
Curvou-se para ela e perguntou:

 - Espero que, pelo menos, no tenha medo dos ces?
Na verdade, ele parecia-lhe mais temvel do que os ces...
- Tem a certeza de que no mordem?
 - No tenha receio. S mordem se eu mandar. So os trs 
mosqueteiros, (chamam-se assim) e so inofensivos. Quando h 
visitas tardias, ladram. Onde est a sua bagagem?
- Eu... a minha bagagem?... No carro...
O gigante convidou-a a sentar-se e preparou
um pequeno-almoo  medida do seu apetite: comeou por bater uma 
dzia de ovos, cortou fatias de um po enorme, foi buscar carnes 
frias e queijo ao frigorfico, e fez tanto caf como se
fosse para um regimento inteiro. Depois, limpou
a toalha plastificada, branca, com desenhos azuis, com uma 
esponja de aspecto suspeito. Serviu Laura com o requinte de um 
empregado de mesa de um restaurante qualificado. Finalmente, 
sentou-se diante dela e olhou-a, bem-disposto.
O gelo comeava a fundir-se e Laura j se sentia bem melhor.
- Tire o casaco, vai ter muito calor.
 - No posso... No estou vestida de maneira muito... 
normal.
O gigante assentiu.
 - Estou a compreender. Suponho que teve
problemas esta noite e fugiu. No diga nada, no
sou, por natureza, muito curioso. Mas esse tipo
devia ser um bom tratante!
 - No, de modo nenhum. Ns  que fomos
pouco correctos para com ele. Quero dizer...
E contou-lhe a sua histria. Os trs mosqueteiros tinham-se 
acomodado. De vez em quando soltavam pequenos gemidos, ou 
suspiravam. 
O gigante escutava-a. Quando terminou, ele disse:
 - Na minha opinio, no h motivos para se
preocupar. Logo, telefona  velha senhora e
diz-lhe onde est. Mas antes de mais nada, tem
de descansar. Ningum vir perturb-la aqui.
O quarto talvez no esteja impecavelmente
limpo, porque a minha mulher est nas termas e
eu no tenho grande jeito para as tarefas domsticas. Quando 
tiver dormido at se fartar, ver as
coisas com mais calma. E depois, se  que posso
permitir-me fazer esta observao, o tal tipo, enfim... esse 
senhor... ele ama-a, est-se mesmo a ver.
- Acha mesmo que sim?
Parecia incrdula. O homem fez um ar importante para 
explicar:
 - Sabe, amei muitas mulheres e disso entendo eu. O amor no 
tem segredos para mim. Quando tiver resolvido os seus problemas, 
escreva-me, a dizer que tudo corre bem. Fica combinado?
Laura no pde deixar de rir.
- Com certeza, prometo.
E acreditava no que ele dissera.


7

A conversa que Eberhardt e Mike tiveram na

herdade do primeiro comeou mal. Mike tomou
a palavra, num tom desagradvel:
 - No tens conscincia de que ests a comportar-te como um 
safado? Queres seduzir uma rapariga que confia em ti, sabendo tu 
que vais p-la a andar quando te apetecer! No tens vergonha?
 - E s tu quem fala assim!? Tu, que sempre
te gabaste das tuas conquistas!?
O tom das vozes foi subindo at que Mike,
esgotados todos os argumentos, acabou por gritar:
 - Ela  minha irm! Entendes agora?  Laura, Laura Kringel! 
E eu no vou permitir que aminha irm...
Eberhardt, com um gesto, f-lo calar e disse:
 - Isso j eu sei h muito tempo, Mike. Soube-o desde o 
primeiro momento em que vocs decidiram divertir-se  minha 
custa, e prometi a mim mesmo que no deixaria que isso 
acontecesse. O resultado, viu-se...
Mike deu um suspiro e lanou-se numa nova
diatribe, mais violenta do que as anteriores.
 - Isso  uma loucura! Sempre te considerei
como um homem de bem e a que concluso cheguei hoje?  certeza de 
que no passas de um conquistador sem escrpulos e sem corao. O 
facto de teres participado na brincadeira desta
maneira s agrava a tua posio. Quando me
lembro da pobre Laura, que a esta hora deve estar na cama a 
sonhar contigo... Ela no desconfiou de nada, nem por um 
instante. De bom grado te partiria a cara! Acabaste por te 
desmascarar e a minha amizade terminou aqui. Vou ter com a
Laura e vamo-nos embora. Nunca mais quero
voltar a ver-te e podes arranjar outro veterinrio.
Expliquei-me bem?
- Mike, no exageres!
"Quando se trata de outras mulheres, ele j no leva o 
assunto to a peito", pensou Eberhardt. " De qualquer forma,  
comovente a maneira como defende a irm."
 - Vais contar-me, com todos os pormenores, como te ocorreu 
a ideia desta conspirao contra mim.
Eberhardt saboreava a agradvel sensao de
se encontrar em vantagem.
- No tenho nada a dizer-te.
- O que vais ouvir acalmar-te-: eu amo a Laura.
Mike olhou-o, surpreendido:
- No  altura para brincadeiras. Pobre Laura...
 - J sei, a pobre Laura est na sua cama a sonhar comigo e 
julga que eu sou sincero. Mas no  isto o que tu querias, Mike? 
Meu Deus! Pensa um pouco! Conhecemo-nos h tantos anos, somos 
amigos e ests a portar-te como um atrasado mental! Julguei que 
me conhecesses melhor. Amo a Laura, entendes?
- Queres dizer que a amas... a srio?
 -  como te digo. Amo-a e estou ansioso
por casar com ela. Fui bem claro?
- Esta agora!
 - Esta agora! - Eberhardt desatou a rir e
continuou: - H uma coisa que me escapa, no
meio disto tudo: o que  que h entre ti e a Renate von Sorppen? 
Suponho que no foi por acaso que Laura usou o nome dela. Ren" 
at  bonita e estou convencido de que ela  do gnero que tu 
aprecias.

Mike fez um gesto de impacincia.
 - Esquece, Eberhardt. Ela parece ser uma
linda boneca, mas, na realidade,  uma autntica
provocadora. Quando toma a ofensiva, os homens tm de saber 
aguentar...
Eberhardt von Bercken disfarou a custo um sorriso.
 - Quer dizer que, com ela, o teu nmero de
conquistador no resultou?
 - Muito pior do que isso! Ela tomou uma
atitude to disparatada que eu fugi como co escorraado, sem 
fazer nem dizer nada. No contes nada disto a ningum, amigo. 
Podes crer que  uma experincia frustrante.
Eberhardt sorriu.
 - Sendo assim, suponho que ests farto dessa jovem 
criatura...
A expresso de Mike tornou-se sombria.
 - O que  aborrecido nisto tudo, sabes, 
que... penso que ela ganhou a partida - confessou Mike. - No 
consigo esquec-la. Nunca me tinha acontecido uma coisa 
destas!...
- Ests apaixonado,  o que !
Mike assumiu um ar sonhador.
 - Agora, Mike, tens de contar-me tudo.
Talvez possamos encontrar nesta trama inspirao para traarmos 
um plano de batalha destinado  menina Von Sorppen.
 - Ests a sugerir que devo continuar com
este jogo? - Mike parecia preocupado.
 - E porque no? Nunca pensei que este gnero de intriga me 
divertisse. Quando a Laura acordar, vou p-la ao corrente dos 
meus projectos de casamento. Ela pensa que eu ainda ignoro
a sua identidade.
Mike Kringel contou pormenorizadamente a
reunio em casa dos Pluttkorten, reproduzindo
a narrativa da encantadora e velha senhora e a
deciso que tinham tomado, de experimentarem
com Eberhardt a receita que ela utilizara em tempos. Por sua vez, 
Eberhardt revelou como descobrira a manigncia.
- Achas que Laura me ama e vai perdoar-me?
- Tenho a certeza. Alis, basta que vs perguntar-lho. Se a 
acordarmos, pacincia. Tem muito tempo para dormir mais tarde.
Os dois amigos subiram ao andar superior,
seguidos por Arco. Chegados  porta do quarto,
hesitaram por momentos. No era l muito delicado entrarem a meio 
da noite. Bateram  porta, primeiro discretamente e depois com 
mais fora. Acabaram por chamar por Laura, ao mesmo
tempo que batiam na porta. Para aumentar ainda
mais o barulho, Arco comeou a ladrar. No
houve qualquer resposta e Mike decidiu abrir.
Entraram e deram com o quarto vazio.
- Ela sabia tudo. Fui longe de mais.
 - No digas disparates, Eberhardt. No dramatizes. Estou 
certo de que foi para minha casa. Vamos telefonar.
Ligaram, sem que ningum atendesse. Laura
encontrava-se no hotel do gigante.
 - Vou para casa - decidiu Mike.  - Com
certeza ela no quis atender. Quando l chegar, telefono-te.

Eberhardt acompanhou-o at ao carro. Quando saam da casa, 
viram Fritz Meerkamp a atravessar o ptio.
 - A menina foi-se embora - disse ele.
 - Porque no me avisou?  -  perguntou Eberhardt.
Meerkamp fitou o patro. Para ele, Eberhardt
continuava a ser o rapazinho que chorava quando
o papagaio de papel lhe fugia das mos ou morria um potro.
 - Porque no era nada comigo. Este assunto
apenas diz respeito ao senhor - retorquiu.
ao chegar a casa, Mike telefonou a Eberhardt. No se sabia do 
paradeiro de Laura.
 - No est em minha casa nem na dos Pluttkorten. Acabo de 
me certificar.
 - Temos de avisar a Polcia!  - Eberhardt
comeava a perder o sangue-frio. - Arranjmos
um lindo sarilho!
Estava arrasado. Percorreu o escritrio de um lado para o 
outro e depois sentou-se  secretria e contemplou o local onde 
Laura tinha colocado a jarra com a orqudea.
Acabo de deitar tudo a perder. Feri Laura e
agora  tarde..."
Apesar de tudo, Eberhardt no queria desistir. Telefonou aos 
Pluttkorten e foi Amlia quem atendeu:
- Est? Fala a senhora Von Pluttkorten.
 - Desculpe, minha senhora, fala Eberhardt
Bercken. Creio que o meu amigo, doutor Kringel j lhe telefonou a 
respeito da irm. A senhora sabe o que se passa. No fao ideia 
de onde ela possa ter ido e estou preocupado.
 - Caro senhor Von Bercken, no sei onde a
Laura est, mas acabo de falar com ela. - Eberhardt respirou 
fundo. Nunca uma notcia lhe dera tanta satisfao.
 - Oia, senhor Von Bercken - continuou a
senhora Von Pluttkorten - , Laura quer vir estar
uns dias em minha casa. Precisa de deixar passar
algum tempo, de reflectir e de saber o que quer.
Prometo que lhe falarei de si. No faa nada.
- Tenho de falar com ela!
- Claro, senhor Von Bercken, mas mais tarde. Tenha um pouco 
de pacincia e confie nesta velhota: as coisas importantes levam 
o seu tempo, no devemos precipitar-nos. Vai seguir o
meu conselho?
Eberhardt fez uma pausa, tossindo fracamente...
 - Est bem, concordo. Esperarei que me contacte.
Mike ficou aliviado por saber que a irm ia
para casa dos Pluttkorten. Muito contente, telefonou para l e 
foi Amlia quem atendeu.
 - Minha senhora, posso falar com a sua neta?
Renate veio ao telefone.
- Est zangada comigo?
- No. E voc?
 - Um pouco. Quer vir ter comigo, Renate?
Prometo que desta vez no vai ter razSes de
queixa do meu comportamento.
- Est bem, Mike, eu vou.
Renate receava ter ido longe de mais com a
sua brincadeira. Vestiu o melhor fato que tinha,
em tweed, com gola de pele e uma camisola de
um vermelho vivo que comprara h pouco. Sentiu-se optimista.

Mike recebeu-a vestido de maneira inesperada: de roupo 
cinzento claro, de seda natural, com as suas iniciais bordadas no 
bolso do peito, e chinelos nos ps. Pelo aspecto dos cabelos em 
desordem, dir-se-ia que acabara de sair da cama.
 - Renate! J nem sei se nos tratamos por tu
ou no. Deixo-te, ou deixo-a escolher...
Renate esboou um gesto de recuo.
- Mas que maneira de me receber!
- No lhe agrada? Ento entre, se faz favor.
Renate entrou, receosa. Mike sorria. Deixara
a porta do quarto completamente aberta. Fez entrar Renate para a 
sala de estar e instalou-a no canap. Acendeu a luz, olhou para a 
jovem e, uma aps outra, fechou as persianas. Pegou num frasco e 
vaporizou perfume  volta do canap.
Renate seguia-o com o olhar e viu-o dirigir-se para o 
gira-discos, onde ps a tocar o Bolero, de Ravel.
 - Sei, querida Renate, que no outro dia tive
uma reaco estpida, mas esqueci-me de que as
mulheres modernas podem ser activas e dinmicas. O que  que voc 
quer? No tenho experincia suficiente. Mas hoje, vou fazer os 
possveis por me adaptar  situao. Como est a ver,
segui os seus conselhos. E agora, estou  sua inteira disposio!
- Voc est  doido!
 - Ser que me esqueci de alguma coisa? Ah,
sim, j sei. - Sentou-se ao lado dela e repetiu:
- Estou  sua inteira disposio.
J s ouviu uma porta bater e um carro arrancar como um 
foguete. Era Renate a fugir.
Mike levantou-se e tornou a vestir-se, assobiando. Estava 
deliciado. Ela tinha-lhe pregado
uma partida bem prfida e ele vingara-se. Estavam quites. Apesar 
disso, no se sentia muito seguro. Era verdade que se tinha 
desforrado, mas Renate partira. E devia detest-lo naquele 
momento...
- De qualquer modo, era preciso haver uma rainha!
"Cabrito e compota de frutos silvestres!
Como se um bom bife com cogumelos no
bastasse! "


8

Mike bem se esforou por reatar o seu namorico com a ruiva 
da Caixa Econmica, mas no
sentia qualquer entusiasmo.
Assim, mergulhou no trabalho, sem esquecer o seu projecto de 
frias nas Canrias. Precisava de mudar de ares...
"Novas caras, novos encontros:  disso que
eu preciso!", dizia para consigo. "No vou deixar-me manobrar por 
aquela Renate von Sorppen, embora seja um encanto e tenha boa 
figura... No acredito muito nas minhas possibilidades... Ela no 
d sinal de vida." Mas no deixava de pensar
em Renate, o que era uma coisa indita na vida
do doutor Kringel!
Pesadas nuvens baixas, carregadas de chuva
tinham feito subir a temperatura. As rvores e o

matos cobriam-se de rebentos. As aves comeavam a celebrar, 
cantando a chegada da Primavera. Os corvos crocitavam ao desafio, 
espantando os melros do jardim de Mike.
A senhora Lange, mulher do dono do cinema, tocou  campainha. 
Trazia um cachorro horroroso debaixo do brao. Mike soltou um 
suspiro de desalento.
Daisy - era o nome do bicho - no partilhava com a dona o 
amor desmedido que esta votava ao doutor Kringel e tentava 
mord-lo quando o apanhava a jeito. Daisy constitua um
pretexto para a dona visitar o consultrio do veternrio...
 - Senhora Mller, diga-lhe que eu sa para
atender uma urgncia.
- No gosto de mentir, doutor.
- Nem se eu lho pedir?
- S em caso de fora maior...
 - E, em sua opinio, neste caso, trata-se de qu?
 - Sou obrigada a reconhecer que se trata de
um caso de fora maior!
Mike ouvia Daisy latir na sala de espera.
O telefone tocou e receou que fosse uma urgncia, mas real, desta 
vez. Se isso acontecesse, seria
apanhado na mentira.
- Est? Fala o doutor Kringel.
 - Amlia von Pluttkorten. Caro doutor
Kringel... quero dar-lhe uma informao...
Amlia comeava a estar farta daquela histria que, no 
comeo, a divertira. Ficara com duas
jovens melanclicas nos braos...
Renate, de nariz enfiado nos seus livros de
Direito, anunciava constantemente a sua inteno
de regressar a Munique, mas nunca mais se ia embora, e Laura, 
plida e abatida, parecia ter perdido todo o entusiasmo pela 
vida. Numa certa manh,revelou que tencionava ir a Bercken.
 - No posso continuar a vestir as roupas da
Renate, at porque me ficam pequenas.
 - No precipitemos as coisas - aconselhou
Amlia.  -  Tudo tem corrido bem at agora.
 preciso ter pacincia, minha filha. Eberhardt
von Bercken aspira a encontrar uma mulher digna
dele. Desde o incio, tem sido ele a comandar o
jogo, mas agora  a Laura quem tem que ganhar
o assalto, seno este pequeno jogo deixa de ter
sentido. Quer confiar em mim?
Laura beijou-a.
A Renate, fizera outro gnero de discurso:
 - J quando eras criana eu no sabia o que
se passava na tua cabea. Esse veterinrio armado
em Casanova preocupa-te. At admito que  um
homem interessante. E se partilhasses o teu segredo comigo?
 - Av, realmente, estou muito confusa  -  confessou a 
jovem. - Vou para Munique e deixo as coisas como esto.
Amlia respondeu-lhe secamente:
 - Como queiras, Renate, mas desta vez no
te limites a dizer que te vais embora, vai mesmo.
J reservaste a passagem de avio?
- Ests a mandar-me embora?
 - No. S pretendo que os teus actos estejam de acordo com 
as tuas palavras.
Renate limpou uma lgrima.

 - O problema  que estou apaixonada por
esse estpido conquistador barato!
- Ests apaixonada ao ponto de desperdiares a vantagem que tens, 
 isso?
 - Era s o que faltava! No quero ser mais
uma na coleco dele. Ser o que me espera se eu ceder.
Amlia von Pluttkorten encarou a neta.
 - Ento vai fazer a mala, Renate. Suponho
que o senhor Dusing no se importar de te levar
ao aeroporto, se lho pedires.
- No quero, prefiro chamar um txi.
A av franziu as sobrancelhas:
- Ests a viver bem!
- Farei economias noutra coisa e pronto!
- E podes explicar-me como consegues isso?
 - Desisto do par de botas que tencionava comprar.
- Muito bem! E agora vai tratar do bilhete.
Quando Laura soube que Renate queria abandonar Pluttkorten, 
ficou contristada e disse para Amlia:
 - Tambm me vou embora. A senhora foi
muito gentil recebendo-me aqui, mas  melhor
que eu v. Passarei por casa do meu irmo antes
de seguir viagem. Infelizmente, depois do que se
passou, no penso em abrir um gabinete de consultadoria fiscal em 
Engenstedt. Posso levar a Renate ao aeroporto.
Amlia interveio:
 - Meu Deus, querida Laura, no faa isso,
peo-lhe! Diga qualquer coisa, que o seu carro
avariou, sei l... Oh! J sei o que ests a pensar,
Wilhelm. No vamos recuar agora, s por causa
de uma mentirazinha...
Laura fitou a velha senhora, perguntando a
mesma o que mais teria ela inventado.
 - Quer dizer... que... quanto ao Mike e 
Renate... enfim, que ainda no perdeu de todo a
esperana de reconciliar aquelas duas cabeas teimosas?
 - As cabeas teimosas so uma coisa - respondeu Amlia - , 
o amor  outra. Ento, est de acordo? Posso contar consigo?
Laura sorriu.
- Claro que sim.
E Laura fingiu estar desolada quando explicou  amiga Renate 
que no podia lev-la ao aeroporto porque o seu carro tinha 
avariado...
Laura e o casal Pluttkorten viram partir o txi
de Renate. O caseiro, que vinha dar comida aos
gansos, precipitou-se para se despedir de Renate
e esqueceu-se de fechar a portinhola da cerca. Os
gansos escaparam-se para o ptio e perseguiram
o txi, batendo as asas e soltando gritos.
Foi uma despedida movimentada e ruidosa.
A viatura afastava-se. Tudo comeara to
bem, haviam tido tantas esperanas, e agora os
sonhos caam por terra. Nem Amlia von Pluttkorten podia agora 
fazer alguma coisa.
Apesar disso, Amlia e Wilhelm von Pluttkorten no pareciam 
preocupados com o rumo dos acontecimentos. Assistiram sem se 
manifestarem  partida da neta, depois olharam um para

o outro e comearam a rir. A seguir, dirigiram-se para casa. 
Conheciam-se to profundamente que j nem precisavam de falar 
para se compreenderem.
Amlia pegou no telefone e marcou um nmero.
 - Est? Fala Amlia von Pluttkorten. Caro
doutor Kringel, quero dar-lhe uma informao...
- Estou a ouvi-la - disse Mike.
 - A minha neta acaba de partir para o aeroporto e ia muito 
abatida. Creio bem que lhe aconteceu qualquer coisa desagradvel. 
Quer voltar para Munique. Como o doutor e ela se
entendiam bem, pelo menos foi a impresso com
que fiquei, pensei que talvez pudesse... Enfim,
quero eu dizer que um homem jovem como o
senhor tem mais possibilidades do que eu de
confortar uma rapariga que sofreu um desgosto. Se o doutor 
pudesse... Ela parte de Hanver-Langenhagen....
Mike despediu-se e desligou. Quando saa do
gabinete gritou  empregada:
- Senhora Mller, vou atender uma urgncia!
Enfiou-se no carro, que consentiu em pegar 
sexta tentativa. Mike ficou enervado. Teve de
parar numa passagem de nvel que estava fechada
e a seguir esperou que passasse uma coluna militar. Depois, foi 
atrs de um veculo pesado, que seguia a dez quilmetros  hora, 
at que este conseguisse ultrapassar um outro. Mal se tinha 
livrado deles, encontrou-se num engarrafamento
que se prolongou por um quilmetro. Finalmente, a estrada ficou 
desimpedida e Mike carregou no acelerador. O pobre carro 
engasgava-se e produzia uma srie de estoiros, desanimadores. Um 
polcia de trnsito que circulava de moto mandou-o parar e 
multou-o por excesso de velocidade...
Por fim, Mike chegou ao aeroporto. Correu
para o balco das partidas. Os passageiros com
destino a Munique j se encontravam na sala de
embarque. Mike precipitou-se para o balco de informaSes e, a 
seu pedido, a recepcionista anunciOU:
 - Menina Renate von Sorppen,  favor dirigir-se ao balco 
das informaSes.
Mike atirara-se para uma cadeira, estafado.
No parecia nada um Don Juan...
Olhava para a porta onde esperava v-la aparecer quando uma 
vozinha disse, atrs dele:
- Mike...
Voltou-se. Era Renate! No sabia o que havia
de dizer-lhe.
- Porque no registaste a bagagem?
- No era capaz de me decidir a partir...
"Os passageiros com destino a Munique devem dirigir-se  
sala de embarque."
Mike e Renate j no ouviram: beijavam-se.
- Se continuarmos, vais perder o avio.
- Apanho outro e pronto!
Olharam-se, rindo.
 - E posso j anunciar-te qual vai ser o destino! - exclamou 
Mike.  - Vamos reservar um
bangal nas Canrias. S vou para frias acompanhado por uma 
mulher encantadora, a minha.
Enfim... se ela estiver de acordo.
 - E o que vo dizer todas as outras mulheres

encantadoras que tero de renunciar a ti?
Mike respondeu, com ar superior:
 - Vo ter de se conformar. Todas tiveram a
sua oportunidade. Tanto pior para elas se no
souberam aproveit-la!
- Mas eu vou saber! Estou to feliz, Mike!
Ele beijou-a de novo. Aquele beijo que parecia nunca mais 
acabar foi interrompido por assobios. Trs mariolas plantados 
diante deles riam e diziam graas:
- Como  belo o amor! - disse um deles.
Mike riu tambm e respondeu ao garoto:
 - Tens toda a razo! Acabo justamente de
dar por isso. Vem, Renate, minha querida. Temos uma quantidade de 
coisas para fazer. Precisamos de tratar dos preparativos do 
casamento.
Dirigiram-se para o carro. Mike levava a mala de Renate.
 - Podamos convidar a Laura e o Eberhardt
para nossas testemunhas, o que achas? - sugeriu Renate.
Mike ficou com ar srio.
 - No creio que tal seja possvel. Eles esto
agora como o co e o gato.
Desta vez o carro pegou  primeira.
- Parece que at o meu carro te adoptou!
Eberhardt von Bercken, por seu lado, estava
extremamente inquieto.
"Perdi a Laura. O Mike nem sequer mexeu o
dedo mindinho para me ajudar. A senhora Von
Pluttkorten limita-se a mandar-me ter pacincia... Mas ningum 
pergunta a opinio da interessada. De facto, ningum nos d uma 
oportunidade."
Estava furioso.
"Agora chega! Estou farto disto! Vou procur-la. 
No quero continuar a ser manobrado como se fosse um 
fantoche! A senhora Von Pluttkorten brinca comigo ao gato e ao 
rato. Quer vingar-se por eu no ter comparecido quela festa. No 
a julgava to rancorosa e mesquinha."
Levantou-se e subiu ao seu quarto. Os antigos 
aposentos de Laura situavam-se na outra ala da casa. 
Como sempre, desde que ela partira, Eberhardt 
sentia-se atrado por aquele lugar. Parecia-lhe que a 
atmosfera havia ali conservado um pouco do perfume de 
Laura. O perfume era o que lhe restava dela... Eberhardt 
vestiu-se com esmero: fato cinzento, gravata, sapatos 
pretos e meias a condizerem. Viu-se ao espelho e no 
gostou. Estava ataviado como um pretendente que vai 
pedir a mo da sua amada. Despiu-se e enfiou o 
vesturio habitual, com o qual se sentia bem, e saiu 
como um furaco.
Por sua vez, Laura tinha tomado uma deciso. 
Eberhardt von Bercken no era nenhuma criana nem 
nenhum inconsciente. A sua passividade demonstrava 
que no se interessava por ela. Com certeza no seria 
por acaso que vivia h tantos anos sozinho. Devia 
contentar-se com uma aventura de vez em quando e no 
resto do tempo preferir permanecer tranquilo no seu 
cantinho. Ela s tinha de se conformar.

Laura bateu  porta da sala, onde a senhora Von Pluttkorten 
estava absorvida na sua leitura preferida: A Vida de Um 
Z-Ningum, de Eichendorff. Possua um exemplar desse livro, com 
vrias ilustraSes. Laura disse-lhe, tristemente:
 - Est decidido, volto para Berlim. Acho
que vou estabelecer-me l por conta prpria.
Numa grande cidade como Berlim no terei de
recear encontros desagradveis. Aqui, no poderia evitar 
eternamente dar de caras com o senhor Von Bercken...
 - No seu lugar, eu no faria nada - respondeu Amlia.
Laura no estava convencida:
 - Pelo contrrio,  o melhor que eu tenho a
fazer. Vou pedir que me mandem para Berlim
tudo o que deixei na herdade de Bercken. A senhora Paulsen 
gostava de mim, e de bom grado me far esse favor.
Laura esforava-se por falar calmamente,
mas, de vez em quando, a voz tremia-lhe. Agradeceu a 
hospitalidade de Amlia e Wilhelm voPluttkorten e foi arranjar as 
suas coisas. Quandpartiu, os gansos estavam silenciosos. Foi uma 
sada discreta.
Eberhardt ter-se-ia cruzado com ela no caminho se Laura no 
tivesse feito um desvio. Chegou  herdade de Pluttkorten alguns 
momentos depois da sada da jovem. Uma criada de fora
perguntou-lhe quem devia anunciar e ele vociferou, fora de si:
 - Bercken! Quero falar com a senhora Von Pluttkorten.
- Queira sentar-se por momentos, a senhora est...
- No vou sentar-me coisa nenhuma!
Eberhardt berrava. Atrada pelo barulho,
Amlia apareceu.
 - Oh! Senhor Von Bercken, acabo mesmo
agora de tentar telefonar-lhe.
Observou-o. Estava perfeitamente descontrolado, mas tinha 
motivos para isso. Amlia sentia-se culpada.
 - A Laura acaba de partir  -  explicou.  - Quer voltar para 
Berlim. Mas nem tudo est perdido, senhor Von Bercken.
- Quando foi que ela partiu?
- H poucos minutos.
 - Disse que ia para Berlim? No ter passado por casa do 
Mike?
 - Ele no est l e a Laura resolveu ir directamente. Ou 
melhor...
- O que foi?
 - Acho que ela falou em despedir-se de algum antes de se 
ir embora... Chamava-se... Chamava-se...
 - Dannyboy! - disse Wilhelm, que vinha a entrar.
Eberhardt no hesitou.
- Dannyboy!
Soltou uma gargalhada, fez meia volta e saiu
a correr, esquecendo-se at de se despedir...
Dannyboy! J sabia onde poderia encontr-la.
Conduziu o carro velozmente. ao chegar junto
de um certo prado, saltou da viatura e avanou a
p at avistar Laura.
Estava de p, no campo. Chorava, com os
braos a rodearem o pescoo de um cavalo. Dannyboy parecia 
inquieto.
Laura no abraava Dannyboy, mas sim Luxor, o seu prprio 
cavalo. Reparou em Eberhardt, ao lado dela, observando-a.
 - At j sonhei com o Luxor e contigo -  murmurou.

 - Desta vez no ests a sonhar, minha querida. Bem sabes 
que os sonhos que o destino nos sugere so sempre verdadeiros! 
Foi como se Laura acordasse, fixando Eberhardt, com os
olhos brilhantes. Era mesmo Luxor!
 - Queres explicar-me como  que o Luxor apareceu aqui?
 - Mandei-o vir de Berlim. Tinhas-me dito
que ele ficara em Lbars. No tive dificuldade
em localiz-lo. Aquela boa gente a quem o entregaras confiou em 
mim e mandou-mo. Eu queria
fazer-te esta surpresa.
 - E como surpresa, foi mesmo em cheio!
Estou to feliz!
- S por causa do Luxor?
- No. Por tudo, Eberhardt.
Ele aproximou-se e deu uma palmada em Luxor, que foi, a 
galope, juntar-se aos outros cavalos. Puxou Laura para si e 
apertou-a nos braos.
 - Tambm eu estou feliz, Laura. Tu s tudo o que eu desejo.
Beijou-a. As faces de Laura, as suas plpebras, sabiam a 
lgrimas. Juntou a boca  dela, e
desta vez a jovem correspondeu.
Ficaram abraados, imveis. At que Eberhardt sentiu que lhe 
puxavam pela manga.
Era Dannyboy que, com a boca, procurava
um torro de acar na algibeira do dono. Os
outros cavalos tambm se tinham aproximado.
Luxor dava cabeadas amigveis ao casal.
 - Que brincalhSes vocs me saram! - queixou-se Eberhardt. 
 - Nem nos deixam beijar em paz!
Encontrou alguns torrSes de acar nos bolsos e, ajudado por 
Laura, satisfez a gulodice dos animais.
Voltaram juntos para Bercken. A ltima nuvem desaparecia no 
horizonte e o Sol brilhava. Os pssaros chilreavam nos pinheiros 
da alameda.
- Gosto deste lugar - suspirou Laura.
 - Tudo isto te pertence, meu amor: o parque, a mata, os 
animais, a casa... E eu, claro.
Pegou-lhe ao colo para subirem a escadaria e
entrarem em casa.
A senhora Paulsen estava no vestbulo e gritou, deixando 
cair o espanador:
- Ah! Esta agora! Estou muito conservada!
- Senhora Paulsen,  consternada que se diz.
 - Aviso-o de que para fazer o almoo do
casamento preciso de gente para me ajudar na
cozinha!
Arco chegou e ps-se aos saltos, festejando a
presena de Laura. Como esta e Eberhardt no
lhe deram logo ateno, o animal, decepcionado,
voltou para o seu canto predilecto, debaixo da
secretria de Eberhardt.
- Devamos telefonar  senhora Von Pluttkorten - lembrou 
Laura. - Foi graas a ela que nos encontrmos.
Laura voltou a entrar no escritrio. Havia flores por todo o 
lado, e sobre a secretria uma nica
orqudea, branca com manchas cor de malva.
 - A tua flor - explicou Eberhardt.
Laura telefonou  senhora Von Pluttkorten,

que esperava ansiosamente aquela chamada.
 - Espero que venha ao nosso casamento,
com o seu marido - disse Eberhardt.
E Laura, pegando novamente no aparelho, acrescentou:
- Dei-lhe tantas preocupaSes, querida senhora Von 
Pluttkorten... Como hei-de agradecer
tudo o que fez por mim?
 - Oh, eu nem fiz grande coisa, minha querida - respondeu 
Amlia von Pluttkorten. - Em contrapartida, aprendi que, se as 
modas passam, os sentimentos permanecem imutveis. Na verdade, 
nada mudou desde a poca em que o meu querido Wilhelm casou 
comigo...

Fim


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